08 de julho de 2026
Nacional

Brasil é reprovado em matemática e leitura

Por Antônio Gois, Angela Pinho e Fábio Takahashi | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

São Paulo - A péssima posição do Brasil no ranking de aprendizado em ciências entre 57 países se repetiu nas provas de matemática e leitura. Os resultados do Pisa (sigla, em inglês, para Programa Internacional de Avaliação de Alunos), divulgados em sua totalidade ontem pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostram que os alunos brasileiros obtiveram em 2006 médias que os colocam na 53.ª posição no teste de matemática e no 48.ª de leitura.

O objetivo do Pisa é comparar o desempenho de diferentes países na educação. Para isso, são aplicados de três em três anos testes a alunos de 15 anos em nações que participam do programa. Em 2006, os exames foram realizados em 57 países. O ranking de ciências, que já havia sido divulgado na semana passada pela OCDE, colocava o Brasil na 52.ª posição.

Além de estarem entre os piores nas três provas nessa lista de países, a maioria dos estudantes brasileiros atinge, no máximo, o menor nível de aprendizado nas disciplinas. O pior resultado aparece em matemática. Numa escala que vai até seis, 73% dos brasileiros estão situados no nível um ou abaixo disso. Significa, por exemplo, que só conseguem responder questões com contextos familiares e perguntas definidas de forma clara.

Em leitura, 56% dos jovens estão apenas no nível um ou abaixo dele. Na escala, que vai até cinco nessa prova, significa que são capazes apenas de localizar informações explícitas no texto e fazer conexões simples. Em ciências, 61% tiveram desempenho que os colocam abaixo ou somente no nível um de uma escala que vai até seis. Isso significa que seu conhecimento científico é limitado e aplicado somente a poucas situações familiares. Nos três casos, a proporção de alunos nos níveis mais baixos é muito maior do que a média da OCDE, organização que congrega, em sua maioria, países ricos.

Leitura piorou

Comparando o desempenho do Brasil no exame 2003 (que já era ruim) com o de 2006, as notas pioraram em leitura, ficaram estáveis em ciências e melhoraram em matemática.

Uma melhoria insuficiente, no entanto, para tirar o País das últimas posições, já que foi em matemática que o país se saiu pior em 2006, com médias superiores apenas às de Quirguistão, Qatar e Tunísia e semelhantes às da Colômbia. Como há uma margem de erro para cada país, a colocação brasileira pode variar da 53.ª, no melhor cenário, para a 55.ª, no pior.

O mesmo ocorre para as provas de leitura e ciências. No caso de leitura, a posição brasileira varia da 46ª à 51ª. Em ciência, da 50.ª à 54.ª. A secretária de Educação do governo José Serra (PSDB-SP), Maria Helena Guimarães de Castro, diz que o resultado em leitura é lamentável. “Essa é uma macrocompetência, básica para que os alunos desenvolvam as outras competências, como matemática, raciocínio crítico.”

Nos exames, o Estado São Paulo ficou abaixo da média nacional nas três áreas avaliadas - inclusive leitura. Suely Druck, conselheira da Sociedade Brasileira de Matemática, afirma que, de um modo geral, os alunos de outros países, assim como os do Brasil, também tiveram desempenho pior em matemática na comparação com as outras disciplinas. “A matemática se distingue das outras por dois fatores: desde cedo, a criança já tem que ter conhecimento teórico e é um aprendizado seqüencial, ou seja, antes de aprender a multiplicar, tem que saber somar”, afirma Suely.

Por isso, ela defende que se exija um conteúdo mínimo em matemática para o professor dos primeiros anos do ensino fundamental, quando todas as matérias são ainda ensinadas pela mesma pessoa. “Grande parte dos professores de 1.ª a 4.ª série têm muito pouco conhecimento matemático”, afirma.

Além de confrontar países, o Pisa permite também comparar meninos e meninas. Em matemática e ciências, no Brasil, os alunos do sexo masculino se saíram melhor, enquanto em leitura o resultado foi melhor para as mulheres.

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Abismo separa redes pública e privada

São Paulo - Entre 35 países onde foi possível fazer essa comparação, o Brasil foi o que apresentou a maior distância, em número de pontos, entre os alunos da rede pública e da rede privada na prova de ciências. O resultado mostra que a elite brasileira, quando confrontada com a de outros países no Pisa, também tem desempenho abaixo da média.

Mesmo estando muito melhores do que os jovens das públicas, os estudantes de particulares ocupariam somente a 24.ª posição e estariam abaixo da média dos países da OCDE. Como nem todos os países possuem rede privada em tamanho significativo, essa comparação se resume apenas a um grupo de 35 nações. Em alguns casos, como em Hong Kong, a rede pública é melhor do que a particular, mas é preciso levar em conta que lá, diferentemente do Brasil, a maioria das escolas particulares - onde estão 91% dos alunos - depende de financiamento estatal.

Outra maneira de fazer essa mesma constatação é comparar apenas os alunos que estão nos extremos de melhores e piores notas. Nesse caso, a comparação é pode ser feita entre todos os países que participaram do Pisa. Se as médias fossem comparada apenas pelo desempenho de estudantes que estão entre os 5% melhores, a posição do Brasil seria a 51.ª em ciências, a 45.ª em leitura e a 53.ª em matemática. A posição não é muito melhor do que em uma mesma comparação considerando somente os 5% piores alunos. As posições, nesse caso, seriam a 55.ª em ciências, a 51.ª em leitura e a 55.ª em matemática.

Outra análise que o Pisa permite fazer é o quanto as médias são explicadas pelo nível socioeconômico dos alunos, já que o fator determinante para o desempenho do estudante é sua situação familiar, ou seja, filhos de pais escolarizados e de maior renda tendem a ter melhor desempenho do que os pobres e de famílias menos escolarizadas, ainda que ambas estejam na mesma escola.