08 de julho de 2026
Articulistas

Discussões desfocadas


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Vários fatos que têm motivado comentários nacionais e até internacionais acabam em frustração no seu desfecho. Isso porque as suas discussões são feitas fora do foco principal. Vejamos três casos como exemplo: do senador Renan Calheiros, do padre Lanceloti e da menina que foi presa na mesma cela com 26 criminosos. As discussões têm fugido do objeto central e se fixado em aspectos secundários, que podem ser importantes, para ajudar a esclarecer, mas que afastam a discussão do que seria o foco principal. Esse fato tem como conseqüência medidas que não conduzem ao final desejado, que é o esclarecimento e a aplicação de medidas corretas.

No caso do Renan Calheiros, o fato que motivaria a sua cassação por quebra do decoro parlamentar, na primeira denúncia, era o pagamento da pensão de sua filha extraconjugal pelo representante de uma empresa que mantém negócios com o governo, o que significa que era a empresa que estava pagando. E como ‘não há almoço grátis’, esse dinheiro saía mesmo é do governo. Velhaco como ele é, e não podendo apresentar documentos bancários que comprovassem que o dinheiro saía da sua conta, apresentou documentos, que além de falsos, apenas pretendiam provar que ele tinha recursos, não precisando que outros pagassem as suas contas. Ter recursos significa que a pessoa pode pagar, mas não prova que pagou. A própria mãe da menina, a jornalista Mônica Veloso, diz em livro que lançou, que Renan não conseguiu provar que a pensão era paga com dinheiro dele. Com essa tática ele desviou a discussão do foco principal para os seus bois e foi absolvido.

Com o padre Lanceloti, a discussão foi no sentido de desqualificar o cara que o chantageava e que todos sabiam que é malandro. Mas, qual o verdadeiro motivo da chantagem? Do que o padre tinha medo, a ponto de lhe dar dinheiro? Teria medo de ser assassinado ou que ele revelasse algum segredo comprometedor? Em vez de se encaminhar para a verdadeira causa, a discussão ficou dividida entre o mau caráter do sujeito e de onde o padre tirava o dinheiro para lhe dar. A discussão continua e talvez no final o rapaz pegue alguns dias de cana e o caso fique por isso mesmo, sem que a sociedade saiba o que realmente aconteceu.

Agora temos o caso da menina presa na mesma cela com 26 criminosos e o que causou repercussão foi o fato de ela ser menor de idade e não de ser mulher. Esse fato é uma agravante, e pesada por sinal, mas o fato principal é a prisão de mulheres junto com homens. Até um idiota sabe que colocar uma mulher numa cela com homens de mau caráter e sedentos de sexo ela será violentada. Mas a discussão começou girando em torno de ela ser menor. Será que se fosse maior não teria importância que fosse estuprada e seviciada? Felizmente a discussão está se encaminhando para o foco principal e revelando que a prisão de mulheres junto com homens não é um caso isolado, mas que além do Pará vem acontecendo no Rio Grande do Norte, em Pernambuco, na Bahia, no Mato Grosso do Sul, no Rio de Janeiro e até em São Paulo. Se o Boris Casoi estivesse na ativa, por certo diria: ‘Isto é uma vergonha. ’

A mudança de foco pode ser intencional, como provavelmente é o caso do Renan, ou provocada por alguma circunstância ligada ao fato principal, como no caso da menina, que por ela ser menor causou mais comoção. De qualquer forma, o desvio do foco prejudica o tratamento do caso e as medidas que poderiam ser mais eficazes.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru