Como assinala na Revista Veja de 17 de outubro de 2007, “uma obra de arte para ser qualificada como grande precisa estabelecer conexões profundas com as pessoas”. Nesse sentido, o filme Tropa de Elite produz esse sentimento de catarse. Segundo Aristóteles (384-322 a.C), as tragédias gregas eram capazes de purgar ou purificar os nossos mais terríveis pesadelos. Através da arte, especialmente a tragédia, forneceria um objeto fictício de descarga. E com a tarefa de construir poeticamente e reinventar a caótica e anárquica sociedade brasileira, o diretor José Padilha revela a tragédia contemporânea da sociedade fluminense: “Como está dito no filme, o policial tem três escolhas: ou ele se corrompe, ou se omite ou vai para a guerra”, afirma o diretor do filme Tropa de Elite.
José Padilha concebe novas leituras - fugindo da falsa e ilusória ideologia esquerdista de transformar o criminoso no coitadinho e injustiçado social – ao revelar a guerra diuturna que a polícia carioca e mais especificamente o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) move contra os traficantes de drogas encastelados nos morros favelizados da cidade do Rio de Janeiro. E mais ainda, reforça a idéia de que os consumidores são cúmplices dos traficantes. “Se existem traficantes de cocaína e maconha, é porque há milhares de consumidores que os bancam”. O sinistro e irônico dessa tese, conforme assinala a revista Veja é que muitos dos consumidores de drogas, aliás, são aqueles mesmos que fazem “passeata pela paz” e compactuam com a bandidagem para abrir ONGs em favelas. Diga-se de passagem, o filme choca com cenas brutais de tortura. É impactante e polêmico. À medida que a narrativa do protagonista – Capitão Nascimento (interpretado por Wagner Moura) – se desenvolve numa intrincada ligação com outros dois personagens (seus prováveis substitutos), vemos um caleidoscópio de gritos, impropérios, batidas de funk, socos, tapas, chutes, tiros, sacos plásticos, - sufocantes e envoltos de sangue - emoções, risos, lágrimas e traições. Os sentimentos de terror e compaixão nascem e coexistem ao mesmo tempo a partir da catarse. O terror e a compaixão são paridas pela desigualdade social e corrupção. Num cenário de constante e cíclico enfraquecimento dos direitos e garantias fundamentais é difícil compreender o que significa Estado Democrático de Direito em nossa “pátria marcada pela desmedida de sentidos e propósitos”. Num país em que os agentes públicos formais agem por interesses particulares, casuísticos e corporativistas fica utópico imaginar a construção de um Estado brasileiro que promova positivamente o desenvolvimento e a justiça social. Minar drasticamente o sedutor convite do crime organizado as nossas crianças e jovens é um desafio. E isso é o que incomoda ou deve incomodar os espectadores dessa “tragédia”. Como combater o crime organizado? Com mais violência? Com uma polícia treinada para matar, para não fazer reféns? Com tolerância-zero? Ou com um governo neopopulista e de base fortemente assistencialista? Realmente estamos imersos em tempos que as referências se diluíram, em que todas as convicções se dilaceram, como aponta o brilhante jornalista Zarcillo Barbosa. Talvez, o filme não traga a válvula de escape. E só gere terror, terror e mais terror! O fuzilamento final do traficante “Baiano” não sepulta o (s) tema (s) social (is). As cortinas fecham-se. O sol se apaga na trama. As luzes do cinema são acesas. O substituto do Capitão Nascimento é encontrado.
E a nossa cidadania? Continuará massificada, alienada, diluída e individualista? É possível despertá-la? O que diz o leitor a respeito disso? Ou será que o Brasil só tem uma escolha? Pense e reflita!
O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é doutorando em Ciência Política pela PUC-SP e professor do Iesb-Preve e Colégio Fênix. jreferraz@hotmail.com