09 de julho de 2026
Articulistas

Espírito de desenvolvimento


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Entramos no último mês de 2007 com a economia em situação bastante melhor do que há um ano. Não são apenas os indicadores macroeconômicos que evoluíram de forma favorável mas, o que é singular entre nós, um crescimento robusto da economia está acontecendo ao mesmo tempo em que se reduzem as desigualdades pessoais e regionais no país. Reencontramos o rumo do desenvolvimento, com o PIB crescendo 5% (vamos virar o ano com fôlego para um pouco mais), produção da indústria e da agricultura em expansão, com aumento do salário real, da oferta de emprego formal e do maior consumo de bens que a expansão do crédito vem proporcionando a um número crescente de brasileiros. Fica o registro que no primeiro ano do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reapareceu o espírito do desenvolvimento, com nítidos sinais de melhoria do bem estar da população trabalhadora e diminuição dos índices de desigualdade, atestada nas respeitadas pesquisas do IBGE.

Alguns fatos foram decisivos este ano para eliminar dúvidas do setor produtivo quanto à disposição do governo de atacar os gargalos da infraestrutura (transportes e energia, principalmente) que desencorajam os investimentos privados. Em matéria de energia houve a demonstração muito clara do suporte do governo à construção de hidrelétricas e sua operação por empresas privadas. As duas usinas do rio Madeira são apenas o começo de um programa para aumentar a oferta da hidroeletricidade, recuperando o caráter original da matriz energética limpa e renovável que sempre foi um dos trunfos do processo de desenvolvimento brasileiro. Tivemos, ao mesmo tempo, a confirmação das reservas de óleo e gás nos campos do Tupi, numa dimensão que dá tranqüilidade de fornecimento no longo prazo do combustível para o setor de transportes. E garante o suprimento de energia (mesmo suja) ao parque industrial. No curto e médio prazos, a produção nacional atende às necessidades do consumo doméstico de petróleo. A autosuficiência, além disso, reduz dramaticamente o risco de desequilíbrios nas contas externas brasileiras. No que se refere à infraestrutura do setor de transportes, não tenho dúvida que o acontecimento determinante para a recuperação do ânimo empresarial foi a conclusão dos leilões de concessão de sete importantíssimos trechos da malha rodoviária. Em poucos meses essas rodovias federais voltarão a oferecer as condições de segurança e economia no transporte da produção e das pessoas. A confiança de que isso vai se realizar pelas mãos da iniciativa privada resultará na aceleração dos investimentos na indústria e agricultura. Apesar da carência de recursos públicos, poderá ser reforçada a recuperação dos trechos de rodovias a cargo do DNIT e dos órgãos estaduais. Mais ainda, os governos de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso sentiram-se motivados a patrocinar programas de construção e recuperação de rodovias, atraindo a iniciativa privada para leilões e concessões de concepção ainda mais avançada que seus similares federais.

Existem, é óbvio, alguns gargalos que podem reduzir o ritmo do crescimento (vou tratar deles no comentário da próxima semana). Estou convencido, contudo, que o espírito do desenvolvimento continuará influindo de maneira crescente nas decisões empresariais, estimulando os investimentos que darão suporte a um crescimento ainda mais robusto nos próximos anos.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento