Na infância, Claudinei Moreira dos Santos, nome que consta na certidão de nascimento, sentia-se diferente das outras crianças. Gostava de vestir saia, brincar de boneca e ficar junto de meninas. Quando chegou à adolescência, começou a se interessar por homens e nunca quis ter uma experiência sexual com uma garota.
Aos 24 anos, Cláudia, como gosta de ser chamada, tomou uma decisão: quer fazer a cirurgia para mudança de sexo, conhecida por transgenitalização. Agora, ela e outros pacientes na mesma situação têm a seu favor uma decisão judicial que estabelece que o Sistema Único de Saúde (SUS) deve oferecer cirurgias de mudança de sexo gratuitamente a transexuais e incluir a operação em sua tabela de procedimentos.
Neste ano, Cláudia procurou um posto de saúde em Lucianópolis, na região de Bauru, antes da determinação judicial, ou seja, antes que a cirurgia fosse oferecida gratuitamente. “Na época, perguntei sobre a cirurgia e fiquei sabendo que poderia fazê-la só particular. Uma amiga me disse que custa em torno de R$ 20 mil e percebi que estava fora de cogitação”, diz.
Ela ficou surpresa ao saber da decisão judicial, meses depois. “Quando fiquei sabendo (que a cirurgia seria incluída na tabela do SUS), minha vontade ficou maior ainda”, fala. Ela diz que na próxima semana vai procurar uma unidade de saúde para solicitar a cirurgia.
A moça mora com outro rapaz há pouco mais de um ano e tem o apoio do parceiro. “Ele também concorda com a minha decisão e me apóia. Disse que vai ficar comigo no hospital”, fala. No dia-a-dia, é vaidosa. Gosta de se maquiar e se vestir bem. “Me interesso pela moda e por novidades de beleza”, conta.
Enfrentar o pós-operatório não é problema para ela, que já venceu outras batalhas – a de contar sua situação para a família. “Contei quando tinha 18 anos. Minha mãe já desconfiava, mas nunca tinha comentado comigo. Ao contrário do que pensava, a minha família me aceitou”, conta.
Cláudia diz que nunca sofreu preconceito, nem entre os amigos e moradores de Lucianópolis. “Sempre me trataram com respeito. Se a pessoa não conhece a minha história, pensa que sou do sexo feminino”, diz. Enquanto espera a cirurgia, ela tem um sonho. “Tenho vontade de ser mãe, mas gostaria de gerar um filho”, afirma.