08 de julho de 2026
Geral

‘Haja pernas para tanto serviço’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 2 min

Se você acha revoltante permanecer 40 minutos em pé esperando para ser atendido no banco, imagine como seria sua vida se você tivesse que ficar oito horas impedido de se sentar. Pense, então, o que seria de suas pernas caso esse período de sofrimento fosse estendido para 13 horas diárias. Alguém toparia encarar esse desafio?

Este repórter aceitou. Na última quinta-feira, fui até a Casa Burgo, na quadra 1 do Calçadão, para saber como é o dia-a-dia de um vendedor. Comerciários que me perdoem, mas tenho de ser sincero: não desejo um sofrimento desses para ninguém! Haja pernas para agüentar tanto serviço...

O dia de trabalho do vendedor tem início logo depois do nascer do sol, por volta das 7h30, quando os consumidores exigentes ainda estão começando a considerar a hipótese de acordar. É o momento de arrumar as vitrines, dar um brilho no chão da loja e fazer os últimos preparativos antes que os clientes comecem a chegar.

Acompanhado de duas moças vestidas de azul, o gerente da Casa Burgo, Andrelino José Vicente, 58 anos, mais conhecido como André, lava a portas de entrada da loja. “Você é nosso novo vendedor?”, diz ele ao repórter. Passadas as apresentações e gozações, chega a hora de pegar no pesado. “Ajude-me com essas barras, por favor”, pede ele.

São três peças de metal, bastante pesadas, que servem como trilho para as portas de correr. O calor é insuportável. O céu está nublado e uma chuva ameaça a cair a qualquer momento. Terminada a limpeza, é o momento de abrir a loja. Começa a espera incansável pelos consumidores.

Ao contrário do que costuma ocorrer em alguns estabelecimentos, meus “colegas de trabalho” não são muito chegados a pegar fregueses a laço. “A melhor coisa é dar liberdade ao cliente para que ele possa se movimentar pela loja. Se você fica muito em cima, ele pode se sentir sufocado e não efetuar a compra”, explica André.

Quando alguém entra na loja, os funcionários preferem limitar a abordagem a um “bom dia”. Se a pessoa diz que está somente dando uma olhada, eles costumam acrescentar um “Sinta-se à vontade”, enquanto aguardam que o consumidor faça (ou não) sua escolha.

Em geral esse processo costuma ser bem rápido. Basta que o vendedor disponibilize três ou quatro (cinco, no máximo) opções ao cliente para que o negócio se concretize. Mas nem sempre é assim. Compradores exigentes (também chamados de caroços, na gíria profissional) costumam endurecer na hora da escolha.

Lurdes Taria, funcionária mais antiga da loja (trabalha no local há 33 anos), conhece bem esse tipo de situação. Na semana passada, ela chegou ao cúmulo levar 25 pares de calçados para que uma mulher experimentasse. “E olhou um por um e disse: ‘Nenhum deles faz meu tipo’”, afirma ela. “Se duas dúzias de sapatos não deram conta de agradá-la, o que seria capaz?”, pensei.