08 de julho de 2026
Geral

Vendas frustradas e chegada do Papai Noel marcam final do dia

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

São exatamente 13h05 e lá estou de volta ao meu posto de “vendedor” na Casa Burgo. Naquele dia, quando o expediente chegasse ao fim, eu teria conseguido realizar a proeza de não vender um item sequer. Nem uma meia! E vejam que o movimento aumentou no decorrer da tarde.

Por volta das 15h, quase consigo fechar meu primeiro negócio. Uma garota de 17 anos entra na loja e caminha em minha direção, deixando os outros funcionários de lado. “Quero que você me atenda.” Estaria eu animado com a minha provável primeira venda? Não muito.

A garota em questão era minha prima Jéssica Stevanato. “Parente não vale”, brinca Rosa Taira, 53 anos, uma das vendedoras mais experientes da loja. “Quero este pretinho aqui e aquele um, que está do outro lado. Veja um par daquele modelo também”, determina a “cliente”.

Desço ao estoque e volto com os pedidos de minha prima. Em ocasiões normais, eu teria dito a ela: “Você está realmente a fim de comprar? Se não estiver, é melhor ir seguindo seu rumo...” (Notem que eu morreria de fome, se dependesse de meus dons de vendedor para sobreviver).

Mas como eu estava ali para trabalhar, tive de incorporar o espírito de comerciário. Com um sorriso largo no rosto, retornei carregando uma caixa nas mãos (as outras duas estavam com Rosa). Minha prima calçou um par, olhou, olhou; pôs um outro, pensou, pensou; por fim, encaroçou. “Acho que vou dar mais uma olhada pela cidade e depois volto aqui”, disse. Até o horário de fechamento do comércio, ela ainda não havia retornado à loja.

Então é Natal...

O dia vai passando e as pernas passam a doer mais e mais. Por volta das 18h, uma parada salvadora para o lanche. Vinte minutos em que posso me sentar e relaxar as pernas. Quando volto para a entrada da loja, percebo que o movimento na quadra começa a aumentar cada vez mais. “É o pessoal descendo para ver a chegada do Papai Noel”, explica Aparecida Ivete Friederich, 50 anos, mais conhecida como Cida, que trabalha há 11 anos no comércio.

A entrada triunfal do “Bom Velhinho” no Calçadão ocorreria, de fato, apenas às 20h30. Fogos, gritaria de crianças, balas para todo lado. A banda do Colégio São Francisco dá o tom da marcha, com a tradicional “Jingle Bells”. Patrão que me perdoe, mas vou para fora acompanhar o agito de perto. Milhares de pessoas sobem a Batista seguindo o cortejo.

Uma mulher entra na loja e fala: “Moça, me dá uma rasteirinha, urgentemente. Meu pé está me matando.” O vaivém de clientes permanece até o final da noite. Por volta das 21h30, quando faltava apenas meia hora para o final do expediente, uma das vendedoras comenta: “Se algum dia eu parar de trabalhar no comércio, farei um big de um banquete de Natal em minha casa.”

Vendedores que atuam no Calçadão costumam trabalhar até 18h do dia 24. “Quando a gente chega em casa, não tem ânimo para mais nada”, explica Rosa. De hoje até a véspera de Natal, ela e as colegas ainda terão de enfrentar 178 horas até o merecido descanso do feriado. Em janeiro, elas receberão alguns dias de folga para poderem se recuperar da megamaratona de final de ano.