10 de julho de 2026
Bairros

Eles estão ‘escondidos’, mas nem tanto

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 5 min

Quando esta edição do JC nos Bairros começou a ser pensada, a idéia era mostrar algumas das peculiaridades que os bairros escondem. Nossa busca era por pessoas que faziam alguma atividade diferenciada, afinal, em Bauru tem de tudo. Nessa investigação, as referências eram poucas.

Foi assim com um fabricante de móveis rústicos esculpidos diretamente dos troncos de árvore. A única referência que tínhamos era que o artesão expõe na feira Ubá. Nosso primeiro passo foi, então, procurar o coordenador da feira, Gennarino Calabrese, o Rino, para saber quem era e onde estava esse artista. Em pouco tempo, já dispúnhamos do telefone e nome do artesão João Gomes.

A partir da lembrança de bonecos de fantoche feitos de pano e expostos na feira Ubá, chegamos a outras artesãs: Cidinha e Juliana, mãe e filha. Rino também sugeriu outro personagem: ele próprio, artesão de marchetaria, arte de incrustar, embutir ou aplicar peças recortadas de madeira, marfim, tartaruga, bronze, etc., em obra de marcenaria, formando desenhos, de acordo com informações do dicionário Aurélio.

Por meio de outra sugestão vinda da Redação, chegamos a uma cerâmica escondida no meio do Tangarás e que recebe clientes de várias cidades da região e do Estado. Foi a vez do nosso motorista entrar em ação, mas como ele não lembrava onde era o ‘esconderijo’, optamos por perguntar e encontramos a cerâmica.

A saga da procura contou também com a ajuda de motoristas e fotojornalistas e o resultado de parte dessa procura você conhece a seguir.

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‘Casa de bonecas’

Se você já visitou a feira Ubá, já deve ter visto a barraca onde estão as bonecas de pano, fantoches e dedoches. Com certeza você deve ter achado legal e elogiado como é bem feito o trabalho, mas já se perguntou onde os bonecos são feitos?

Andando pela rua Patagônia, na Vila Independência, quem vê a casinha de madeira, bem pintada, com um sino dos ventos na varanda e uma guirlanda de Natal na porta, não imagina o que se esconde por entre as paredes. Ao entrar na sala, qualquer menina ficaria encantada com o que vê, já que no primeiro cômodo da pequena residência estão expostas algumas das peças fabricadas pelas artesãs Aparecida Matias de Oliveira, a Cidinha, e pela filha dela, Juliana Cristina de Oliveira.

A própria Cidinha confessa que as clientes costumam chamar o local de ‘casa de bonecas’, de tão bem decorada que a casinha está, além de ter suas paredes revestidas com as peças fabricadas pelas artesãs.

Hoje, mãe e filha fabricam bonecas, porta-retratos, guirlandas, móbiles, dedoches, pesos de porta, entre outros. Aproveitando a época de Natal, elas fizeram até um presépio com bonequinhos de pano. Mas o início de tudo foram os fantoches. Cidinha explica que começou há dez anos. “Eu fazia um trabalho com crianças e fabricava os bonecos para ajudar nas atividades”, destaca.

O que ela não imaginava é que essa arte iria chamar a atenção de outras pessoas. Cidinha lembra que começou a receber encomendas de outros tipos de bonecos, além dos fantoches. A partir daí o negócio cresceu e virou uma fonte de renda. Tanto é que a artesã fazia as bonecas na própria residência, mas precisou mudar a oficina para outra casa, já que a produção aumentou. “Quando comecei a fazer, não imaginava que chegaria nesse ponto”, afirma.

A filha, Juliana, ajuda a mãe desde o começo. Antes ela apenas ‘emprestava’ a mão para fazer moldes, pintava algumas peças, hoje é responsável por boa parte da produção. A jovem confirma que no bairro poucas pessoas sabem da existência de uma oficina que faz bonecos, mas quem conhece não resiste. “Os clientes vêm, compram e acabam indicando para outras pessoas”, ressalta.

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Marchetaria

O marcheteiro Gennarino Calabrese, o Rino, nasceu na Itália. Para ser mais exato, em Brescia, na região da Lombardia. Garoto ainda, ele veio para o Brasil e trabalhou em grandes empresas, como a Kibon e a Addam’s. Nesta última, foi designado para Bauru, onde chegou em 1995. Paralelo a isso, desempenhava a arte da madeira como hobby até que, há oito anos, a paixão virou trabalho, feito com muito prazer.

As peças produzidas por Rino são expostas na feira Ubá, da qual o marcheteiro é o atual coordenador, mas a linha de produção está bem perto de sua casa, no Jardim Gaivota. Isso agora, porque antes a oficina era na própria casa. “Mas eu fui expulso pela mulher. Era muito pó”, comenta, resignado.

Rino aprendeu a arte com o pai, que era marinheiro e nas horas vagas das viagens esculpia em madeira, arte comum entre esses profissionais do mar. Após a aposentadoria, Rino transformou-se em marcheteiro e hoje produz peças que vão de caixas de chá, para guardar baralhos e dominó, até porta-chaves e quadros, feitos com marchetaria. Até ficar pronto, cada parte do desenho é esculpida e colada na madeira. O resultado é fantástico.

A produção não é em larga escala, até porque cada peça demora meses para ficar pronta, por causa do trabalho minucioso de artesão. Além das peças que são expostas na feira, o artesão participa de concursos, com quadros feitos por ele, a partir de obras famosas, ou de sua própria autoria. “Alguns eu copio, outros eu mesmo crio”, resume.

Quem passa pela casa de Rino não imagina que ali dentro estão guardadas peças tão bonitas, fabricadas com tanto zelo. Afinal é apenas uma residência comum, o que transforma o artesão em mais um ‘escondido’ de Bauru. Isso não atrapalha, pelo contrário, as pessoas que freqüentam a feira Ubá de recomendarem o trabalho. E assim, de boca em boca, as obras de Rino vão sendo conhecidas por bauruenses e moradores de outras cidades.