O palco é substituído pela sala de aula. O público, pelos alunos. Os aplausos, pela satisfação em ensinar. A mudança de cenário é feita por quem possui, além do talento artístico, também vocação para o magistério. O vestibulando com essas aptidões pode optar pelos cursos de licenciaturas no campo da música, do teatro, da dança e das artes visuais. Assim como os cursos mais tradicionais de licenciatura - matemática, história e biologia, por exemplo -, eles também são necessários para dar aula nos ensinos fundamental e médio.
A bailarina e professora de dança Clara Gouvêa optou pelo curso de licenciatura em dança da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para obter uma formação mais completa. “A universidade está voltada para a prática, mas também para a pesquisa. Pensamos o que é a dança, estudamos história da arte. Temos até aula de psicologia ligada à dança, para conhecer estratégias pedagógicas e aprofundar o trabalho como educadores.’’ Na hora de encontrar trabalho, Clara não teve dificuldade. “O diploma ajudou. Já dei oficina em colégios municipais e aulas em escolas livres de dança.’’
Os cursos de licenciaturas têm, em geral, quatro anos, e o professor pode dar aulas no ensino fundamental de quinta a oitava séries nas disciplinas para as que estiver habilitado. O curso de pedagogia, exigência para lecionar até a quarta série, dura cinco anos.
Quem procura cursos de licenciatura quer ingressar no mercado de trabalho mais rapidamente, afirma Neide Noffs, 59, coordenadora-geral do projeto da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) para a formação de professores da educação básica. “Os alunos querem ter um conhecimento específico numa área e, também, seguir o desejo de serem professores’’, diz.
Na PUC, é possível atrelar o bacharelado à licenciatura, cujas disciplinas são integradas. “Antes, o aluno fazia três anos de bacharelado e, se quisesse ser professor, cursava algumas disciplinas na faculdade de educação. Agora, ele lida com a prática desde o primeiro ano.’’
Júlio Pereira, aluno da licenciatura em filosofia do Mackenzie, ingressou na faculdade com o objetivo de fazer bacharelado, mas, motivado por professores, optou também pela licenciatura. “Apesar das dificuldades, a gente sempre tem a ideologia de que vai reverter tudo isso, mudar a educação.’’
O estudante César Augusto Araujo Oyakawa também planeja ser professor, mas a decisão foi mais por gostar de história do que pela influência de docentes. “Sempre explicava a matéria aos colegas’’, diz. “Além disso, o professor é um formador de opinião.’’
____________________
Salário desanima
Mesmo com déficit de professores, especialmente de ciências (física, química e biologia) no ensino médio, e conseqüente excesso de vagas, são poucos os profissionais que decidem atuar no magistério. A procura escassa se deve a baixos salários, longas jornadas e salas de aula abarrotadas.
Na tentativa de melhorar esse cenário, o governo federal aposta no Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). Entre as medidas, estão a adoção de um piso salarial nacional de R$ 850,00 e a formação à distância de professores pela Universidade Aberta do Brasil.
“Para o graduado, muitas vezes é mais atraente seguir carreira acadêmica e fazer mestrado ou doutorado com bolsa do que trabalhar como professor’’, avalia Ronaldo Mota, secretário de Educação Superior do Ministério da Educação.
A questão do piso salarial também dificulta uma maior adesão de profissionais. “Além de insuficiente, há um problema de concepção do piso, que envolve custos com transporte e refeição, e não diferencia se a formação do professor incluiu mestrado ou doutorado’’, diz Juçara Dutra Vieira, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação.
Cláudio Fonseca, que ensina em escolas públicas há 27 anos, afirma que a principal dificuldade no início da carreira é a falta de treinamento. “Você chega, recebe giz e apagador e tem que começar a trabalhar.’’
Os obstáculos, porém, não desestimularam Fernanda Assis Lopes. Professora do Colégio Rio Branco, em São Paulo, há quatro anos, ela realizou um sonho de infância. “A sala de aula sempre me fascinou.’’