Em uma das hilariantes seqüências da ótima comédia “A Vida de Brian” do grupo Monty Python, o protagonista Bryan, um contemporâneo de Jesus Cristo, é perseguido por uma multidão convencida de que ele é o messias. Em um determinado momento, Bryan afirma categoricamente diante do grupo: “Não sou o messias! Querem me ouvir, por favor? Não sou o messias! Será que entendem?”
O silêncio toma conta da multidão até o exato momento em que uma mulher lembra a todos: “Só o verdadeiro messias nega a sua divindade!” Bryan, não vendo mais como se livrar da situação, responde desesperadamente: “O quê? O que posso fazer? Pois bem, sou o messias!” A multidão admirada proclama: “Ele é! É o messias!”
O grupo Monty Python satiriza nesta seqüência não exatamente a atitude dos semitas da época de Jesus Cristo, mas sim a necessidade que a sociedade moderna possui de controlar todos os indivíduos exigindo deles uma definição de papéis, ou seja, uma declaração, uma confissão clara de sua identidade.
Segundo Michel Foucault, desde a Idade Média, iniciou-se no ocidente um processo de fiscalização da sociedade sobre o indivíduo. Enquanto que na Antigüidade a exposição livre e espontânea da individualidade significava a garantia de status, de identidade e de valor atribuído sempre a alguém por outra pessoa, na modernidade a definição social do indivíduo passou a ser a obrigação do próprio indivíduo em corresponder à expectativa da sociedade.
O indivíduo desde pequeno aprende que “ser aceito” significa ser autenticado pelo papel social que o grupo lhe impõe e pela manifestação de seu vínculo com outra pessoa, instituição ou atitude. Dessa forma, o ser humano descobre rapidamente qual o discurso de verdade que deve (ou é obrigado a) ter sobre si mesmo. Ter o discurso que todos esperam e corresponder às expectativas sociais se inscreveu no cerne dos procedimentos de individuação, passando a ser, no ocidente, uma das técnicas mais altamente valorizadas para produzir a verdade. Desde então, criamos uma “cultura opressora” e o ser humano do ocidente tornou-se alguém que possui pelo menos duas identidades: a interior e a social.
Em todas as esferas encontramos uma forma de moldar o indivíduo, ou melhor, de definir o que este indivíduo deve ser: na justiça, na medicina, na pedagogia, nas relações familiares, nas relações amorosas, na esfera mais cotidiana e nos ritos mais solenes; de acordo com padrões pré-estabelecidos aprendemos a confessar os crimes, os pecados, os pensamentos e os desejos; relembramos o passado “conveniente” e planejamos o futuro “desejado”. Assim, o indivíduo representa um papel para ter um “público”, ou seja, ser amado pelos pais, reconhecido pelos professores, aceito pela empresa no mercado de trabalho.
Nas sociedades modernas, a obrigação de corresponder à expectativa do grupo ou da tribo social já está tão profundamente incorporada em nós que não a percebemos mais como efeito de um poder que nos coage. Parece-nos, ao contrário, que nossa identidade não exige nada mais que se revelar ao grupo social. A identidade passa a não ser mais algo que posso discutir, refletir e escolher, mas uma roupa que devo vestir de acordo com a situação.
De qualquer forma, o moldar-se aos padrões sociais é sempre um ritual de discurso onde o sujeito que fala coincide com o sujeito do enunciado. Pai de família, trabalhador, esposa, filho, filha, cada enunciado destes possui uma verdade pré-estabelecida que não é questionada, mas simplesmente assumida assim que cada indivíduo se encontra nesta situação. Desta forma, a criança cresce, namora, casa, trabalha, cria os filhos, envelhece e morre correspondendo a cada papel dentro de cada momento de sua vida social. A expectativa do grupo sobre o indivíduo é um mecanismo que surge e funciona numa relação de poder, pois não se representa um papel sem a presença ao menos virtual de um parceiro que não é simplesmente um interlocutor, mas a instância que exige do outro o que ele deve ser ou fazer.
A necessidade de corresponder a um papel social já pré-estabelecido gera não somente o autoritarismo social, mas leva o indivíduo a centralizar-se em seu ego. Enquanto estamos preocupados com o que os outros estão pensando estamos centralizados em nosso próprio eu. O nosso ego se sente em um palco sendo observado pelo público e necessita de aplauso. A busca de corresponder às expectativas sociais não significa simplesmente um poder do social sobre o indivíduo, mas a formação de uma mentalidade egocêntrica deste indivíduo que deseja ser aceito e reconhecido.
Enquanto a sociedade cobra e o indivíduo se molda, a autenticidade e as diferentes formas de ser deixam de ser discutidas, refletidas e pensadas. Resultado: a sociedade adoece e se empobrece. Aquele que busca a autenticidade surpreende o grupo, mas, ao mesmo tempo, é invejado pela liberdade e criticado pela ousadia.
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