09 de julho de 2026
Nacional

Tremor de terra mata criança em Minas

Por Fábio Amato | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Belo Horizonte - Uma menina de 5 anos se tornou ontem a primeira vítima fatal de um terremoto no Brasil. O tremor, que aconteceu no vilarejo rural de Caraíbas, na cidade de Itacarambi (662 quilômetros ao norte de Belo Horizonte), em Minas Gerais, deixou outras seis pessoas feridas - duas em estado grave, segundo o governo mineiro.

De acordo com o Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UNB), o terremoto começou à 0h05, durou cerca de 15 segundos e atingiu 4,9 pontos na escala Richter - o mais alto já registrado até ontem foi de 9 pontos.

Todas as construções da comunidade tiveram algum tipo de avaria, sendo que seis casas ficaram totalmente destruídas e 69 foram danificadas e estavam sendo evacuadas, informou a prefeitura local. A menina Jesiane Oliveira da Silva dormia numa cama com sua irmã gêmea quando o terremoto aconteceu. A parede do quarto onde elas estavam desabou sobre a cama. Jesiane morreu na hora, segundo a prefeitura. A irmã e um outro irmão dela que também estavam no quarto ficaram com ferimentos.

As três crianças moravam com a mãe, lavradora, e uma avó, aposentada, disse o prefeito de Itacarambi, José Ferreira de Paula (DEM). Segundo ele, o cenário na comunidade de Caraíbas, formada por pequenos produtores rurais, era de “tristeza e desespero”. “Nenhuma das 75 casas da comunidade ficou inteira. Naquelas que não ficaram destruídas, pelo menos o telhado ou uma parede desabou. As pessoas estavam chorando, havia um descontrole total. Todos estão com medo de um novo terremoto e ninguém mais quer ficar ali”, disse ele, que foi à comunidade no início da manhã de ontem.

Paula informou que nove caminhões foram enviados para Caraíbas para retirar os cerca de 400 moradores. Eles seriam levados para uma creche em Itacarambi.

O terremoto chegou a ser sentido por pessoas que estavam a dezenas de quilômetros de distância. O professor Vicente de Paula Ferreira, morador de Itacarambi, contou que estava em uma festa quando o fenômeno aconteceu. “Senti o chão tremer e algumas garrafas que estavam sobre a mesa chegaram a cair chão. As pessoas ficaram assustadas, todos saíram de suas casas foram para a rua. A minha mulher estava dormindo quando aconteceu e levou um susto muito grande”, relatou ele.

Causas

De acordo com o geólogo Cristiano Chimpliganond, da UNB, o tremor deve estar relacionado à movimentação de uma falha geológica - espécie de rachadura na placa tectônica - localizada justamente sob a comunidade de Caraíbas. Esta rachadura teria entre 2 quilômetros e 3 quilômetros de extensão e ficaria a cerca de 5 quilômetros de profundidade, a mesma do epicentro do terremoto de ontem.

Chimpliganond disse que os tremores são freqüentes na comunidade de Caraíbas desde pelo menos maio deste ano. No dia 24 daquele mês já havia sido registrado um abalo de 3,5 pontos, que chegou a provocar rachaduras em algumas casas.

Em outubro, o Observatório Sismológico instalou no local seis sismógrafos com o objetivo de estudar o fenômeno. Desde então, pelo menos 20 tremores foram registrados pelos aparelhos, com intensidade média de 2 pontos na escala Richter. Os moradores sentiram 15 deles. “O terremoto teve uma magnitude considerável se levarmos em conta que o Brasil fica longe das bordas das placas tectônicas (o País está dentro da placa sul-americana, que vai da metade do Oceano Atlântico até a Cordilheira dos Andes)”, disse.

Segundo o chefe do Obsis e professor de sismologia da UnB, Lucas Vieira Barros, o tremor no norte de Minas é o primeiro a provocar morte desde o início das medições feitas pelo observatório, em 1968. Até ontem, “apenas uma dezena” de abalos acima desta magnitude ocorreram no Brasil. O maior deles foi no Mato Grosso, de 6,2 graus, em 1955.

____________________

Comunidade deve ser extinta

Belo Horizonte - A comunidade de Caraíbas, que tem entre 350 e 400 moradores que vivem da agricultura e de uma fábrica de farinha, deve ser extinta. É o que afirma o prefeito de Itacarambi (662 quilômetros de Belo Horizonte), José Ferreira de Paula (DEM).

Paula diz que nenhum dos moradores quer voltar para o local. Eles temem um novo tremor como o de ontem. Caraíbas vem sendo atingida por sismos desde maio passado. “Este é o segundo terremoto mais forte que os moradores enfrentam (o primeiro foi no dia 24 de maio). O povo não quer ficar mais lá. De manhã, quanto cheguei à comunidade, as pessoas choravam e me pediam, de joelhos, um lugar em Itacarambi para ficar”, disse.

A prefeitura pretende doar terreno para as famílias. As novas casas devem ser erguidas com verba do governo mineiro. De acordo com o prefeito, a comunidade contava com 75 casas de alvenaria, todas com água encanada e energia elétrica. Telefone não há. O mais próximo fica a 12 quilômetros dali, no distrito de Vargem Grande. Ele relata que só ficou sabendo o que aconteceu em Caraíbas por volta das 3h, quando um morador, dono de uma motocicleta, chegou ao centro da cidade em busca de ajuda.

A destruição que atingiu Caraíbas também dificultou a realização do velório da menina Jesiane Oliveira da Silva, a única vítima fatal da tragédia. “Não ficou uma casa em condições de receber o velório. Pedimos uma casa emprestada em Vargem Grande. Foi uma tristeza”, disse Paula.