08 de julho de 2026
Articulistas

Mulher - objeto


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Heloneida Studart tinha sido submetida a uma cirurgia cardíaca. Pensávamos que ela venceria mais essa batalha mas, consternada, recebi a informação de que acabava de falecer (3 de dezembro). O corpo da jornalista, escritora e deputada por seis mandatos foi velado no Palácio Tiradentes (sede da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro). Estudiosa da psicogenética de Jean Piaget e pioneira de estudos sobre a condição da mulher, batalhou incansavelmente por direitos iguais entre homens e mulheres. Ferrenha contestadora dos governos da ditadura, escrevia no Pasquim. Em 1974 publicou o o famoso livro "Mulher, objeto de cama e mesa", causando furor: em 1978 já estava na 9.ª edição, logo também esgotada.

Defendeu o ingresso das mulheres no trabalho formal, onde atuou ainda adolescente. "Foi trabalhando que compreendi a alienação do trabalho. Devo à minha entrada na produção(...), nada menos que a consciência", afirmou Heloneida, quando ficou desempregada em 1969. Observando e conversando com as mulheres que permaneciam nos estreitos limites domésticos em plena era espacial, escreveu: "Seria possível que aquelas criaturas nascessem com os mesmos 10 bilhões de neurônios com que nascem os machos da espécie? Sua inteligência, como outrora os pés das chinesas, mantinha-se atrofiada."

A trama social (histórica e cultural) de costumes, normas e conveniências consegue confinar muitas mulheres presas como escravas ao extenuante trabalho doméstico, consagradas como rainhas do lar, o que faz com que, como afirmou Heloneida, pareçam retardadas mentais. Enquanto o homem saiu, foi à caça, criou a charrua e depois a astronave, assegurou o seu desenvolvimento mental, a mulher, cozinhando e procriando, sempre na caverna (que passou a se chamar lar), esperava a volta do caçador. É o que Lauro de Oliveira Lima chamou choco psicológico.

Sempre muito atenta ao que ocorria no mundo do trabalho formal, lembrou que em 1872 a população feminina economicamente ativa no Brasil chegou a cerca de 45% e em 1920 caiu para 15,3%, tornando a crescer vagarosamente até atingir 20% em 1970. Enquanto na URSS as mulheres ingressaram nas universidades e nos grandes centros de pesquisa de ponta, nos Estados Unidos ocuparam as fábricas. O Estado Nazista (Alemanha), em junho de 1933, demitiu as funcionárias e, por meio de decreto, proibiu dois salários em cada família, impedindo que as mulheres participassem do trabalho formal. Além disso, dificultou o ingresso das mulheres no ensino superior e suprimiu as bolsas de estudo para meninas no ensino secundário. As mulheres foram incentivadas a serem apenas mães e nutrizes dos cidadãos do III Reich: KKK, ou seja Kind (criança), Kirche (igreja), Küche (cozinha).

No Brasil de 1964, as mulheres foram incentivadas à Marcha da Família com Deus pela Liberdade, na defesa do propriedade privada e da moral familiar, apoiando a quebra da democracia. Os homens totalitários, ao longo da história, defenderam o ideal da mulher doméstica. No entanto, em todos os países em que prevalece a ideologia de que a mulher deve ser apenas mãe, é nesses mesmos lugares que ela é mãe desamparada, que as legislações não a protege no parto e no aleitamento, que fica sozinha para criar os filhos, sem ajuda de creches.

Em 1975, Heloneida fundou o Centro da Mulher Brasileira e continuou suas críticas a grande parte dos movimentos liberacionistas norte-americanos que não situam os males da condição feminina no sistema, mas no macho da espécie .(...) Os Estados Unidos têm todo interesse em deixar as mulheres fora da produção (...) cultivando o mito do eterno-feminino.

Todas essas considerações foram feitas em 1974, causando reações contundentes, mas ainda hoje Heloneida se mostra atual na crítica ao mito da eterna-juventude exigida das mulheres: Ensinam que ela deve ser carne: ancas, pernas, seios. Convenceram-na de que, se não for mais bonita [conforme o último padrão], não será mais ninguém.

Durante a Constituinte, participou do Lobby do baton defendendo direitos trabalhistas para as mulheres. Aos 75 anos, Heloneida Studart ainda trabalhava como diretora do Centro Cultural da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. O Brasil perde uma pioneira nos estudos sobre a condição das mulheres e uma grande batalhadora em defesa dos direitos humanos.

A autora, Iolanda Toshie Ide, é colaboradora de Opinião