Quem vê Antônio José Santana Martins, no palco, no auge dos seus 71 anos, não consegue imaginar a energia positiva que Tom Zé transmite às pessoas que o conhecem. Na semana passada, o cantor fez um show na abertura do encontra que marca os 20 anos de luta por uma sociedade sem manicômios.
Tom Zé conta que viveu muito próximo do problema quando criança. “A situação era tão complicada, os dramas e as dificuldades eram muitas que alguns parentes próximos chegaram a sentir na pele a vida dentro de um manicômio”, lembra.
O músico exaltou a idéia que nasceu em Bauru, há cerca de 20 anos, e que agora volta à cidade em um encontro nacional para discutir os resultados alcançados. “Foi uma atitude que se mostrou humana, carinhosa com as pessoas em geral. Essa atitude foi uma verdadeira exceção, já que a sociedade só se reúne em grupo ou em corporação para agredir o outro”, opina.
Antes do show, durante os ensaios, Tom Zé demonstra o mesmo entusiasmo que o acompanha pelos palcos e mostra toda sua rebeldia nas letras e canções que compõe. “Digo sempre que não faço canções, mas faço rebeldia e por isso talvez essa minha identificação com o público jovem”, explica.
O músico, que já possui diversos trabalhos no mercado, conta que antes do lançamento do seu último álbum, “Danç-eh-sá”, chegou a ficar com medo da resposta que teria do público. “É com certeza o trabalho mais radical da minha carreira, não tem palavras, ele marca o fim da canção e alcança os chamados jovens desinteressados”, diz. Ele lembrou que teve receio do CD não ser compreendido, mas o “Danç-eh-sá” se tornou um sucesso, foi bem aceito e vendeu muito nos shows de lançamento. “Eu posso até ter medo, mas não posso deixar de fazer aquilo que acho que deve ser feito”, comenta Tom Zé.
Ele comemora a identificação que possui com jovens e diz que nunca teve a intenção de ser uma referência para esse público. “Não posso negar que isso seja ótimo e a única explicação que vejo é que eu sou péssimo compositor, cantor e instrumentista, por isso tenho que trabalhar sempre na fronteira do que é som e do que ruído, entre o que ridículo e o que brilhante. Trabalhando nessa região acabei fazendo trabalho singular”, justifica o músico.
Para Tom Zé, em seu último CD, ele deixou de ser compositor para ser uma espécie de “ludositor”, que usa os recursos sonoros para uma espécie de diversão, para fazer música de dança e jogo. “Não sei tratar do contemplativo das pessoas, eu só sei jogar o anzol no cognitivo da platéia e tentar trazer ela para pensar comigo. Raciocinar um gesto diferente do que eu estou cantado, porque geralmente as duas coisas acabam paradoxais, acabam se explicando melhor do que uma coisa onde é recorrente o significado e gesto. Essas coisas todas são auxiliares da pessoa que não é cantor”, analisa.
Desconversando
Depois do lançamento do CD “Danç-eh-sá”, chamado pelo próprio Tom Zé de trabalho suicida, o músico evita falar sobre o seu próximo trabalho. Ele conta que para produzir o último álbum, teve jogar fora tudo o que estava estabelecido como suas qualidades. “Tudo que já estava num patamar em que eu era considerado, respeitado, um bom letrista e um músico que sabia trabalhar com temas brasileiros, tudo foi jogado fora para fazer ‘Danç-eh-sá’”, lembra.
Tom Zé diz que o provocador do CD foi uma pesquisa apresentada pela MTV que apontava que a juventude era hedonista, egoísta, consumista, que não queria saber do problema terra e que ainda não gostava de letra de música e então ele resolveu aceitar o desafio de fazer o disco sem uma só palavra de música. “O disco não tem uma só palavra, mas eu nunca escrevi tanto sobre crítica política e crítica social do que nesse último disco”, conta Tom Zé.
Sobre um novo CD, Tom Zé esconde o jogo e diz não ter nada montado. “A gente sempre está trabalhando o próximo trabalho, mas na música, não sei as outras coisas, mas ela é inimiga da conversa, se você fala sobre ela, daí não faz”, encerra.