Minha mãe me achava esquisita. Bem, não é qualquer noiva que vai para o altar com uma coroa de flores na cabeça, sem véu e sem sapatos. Meio hippie tentando ser naturalista e adepta da homeopatia, seria esquisitice ou coisas de geração? Certa vez fui submetida a um tratamento com ventosas, e voltei para casa como se tivesse passado uma temporada com o reverendo chinês, torturador de seus adeptos. No curso de pós-graduação da ECA, quase matei todo mundo do coração quando fiz 30 anos. Comprei roupas modernas, abandonei os trajes indianos, tirei a permanente deixando o cabelo com um corte clássico, tornando-me um ser humano, senão normal, pelo menos apresentável. A proposta dessa minha geração era ser saudável, com integrais, maconha e sem açúcar. Hoje, todos querem estar bem.
A prova são consultórios e academias lotados. A medicina é ciência experimental e somos cobaias testando o anticoncepcional e a reposição hormonal. Só como exemplo: ontem, manteiga era um veneno. Hoje a margarina é a vilã. Uns dizem que leite é alimento para os filhos da vaca; outros que se deve tomá-lo todos os dias, principalmente, se conservado com soda caustica. Vamos aguardar os resultados. Mas o novo visual não mudou as crenças antigas e a terapia alternativa continuou permeando minha vida. Coitados dos meus filhos... Sem vacinas, eles tiveram todas as doenças infantis como catapora, rubéola e sarampo. Os remédios iam de acônito, arnica, beladona, passando pela coca do Oriente até chegar à noz vômica. Depois vieram os florais de Bach, de Minas, da Califórnia, etc, etc. Tinha chá de hortelã, camomila, cidreira ou malva, dependendo do sintoma. As crianças cresceram fortes e saudáveis. Inexplicável, não é?
Aos 38 anos, entrei na fase em que os hormônios começam a decrescer até a menopausa entre 50 e 52 anos. Contra a vontade do meu homeopata, era hora da reposição hormonal. De acordo com o cardiologista, o tratamento era indispensável para proteção do coração. Efeitos colaterais? Esquece. A relação custo-benefício justifica o uso. Afinal, a geração mini-saia não quer envelhecer. Os avanços dos conhecimentos sobre o climatério, novas terapias, dietas balanceadas e atividades físicas tornaram o envelhecimento compatível com qualidade de vida. Tempo de buscar um especialista no assunto. Acabei no consultório do Dr. Castilho. Após a consulta, saí eufórica, em busca de definições para estrogênio, serotonina, progesterona e testosterona. Todo mundo tem hormônio masculino e feminino no corpo nas devidas proporções, garantiu o doutor. O Stallone tem mais do masculino e a Demi Moore mais do feminino. Será? Outro dia, li que ela não consegue engravidar por excesso de hormônio masculino no organismo. Pensei: testosterona.
Produzido pelo organismo é responsável pela massa muscular. Ao estimular o metabolismo, faz o corpo usar a gordura acumulada como fonte de energia. Só tem um probleminha: ele é hormônio masculino empregado no tratamento feminino. Senhoras, cuidado com a dosagem para não acabarem com bigode e falando grosso. No meu caso, as pessoas pensariam em performance ou em fantasia para algum happening. Esquisita, dirão alguns e com razão. Não é qualquer pessoa que deita na grama nas noites claras de verão e fica esperando objetos não identificados aparecerem em seu quintal, imaginando um mundo melhor com ET ou sem ele, por que não? Mas, esquisito mesmo, é combinar testosterona com comida natural... E, como a história se repete sempre, ouço minha filha dizendo aos amigos: não liga não, minha mãe é maluquinha de tudo...
A autora, colaboradora do Ju Machado escritório de arte, assina com o pseudônimo de Rosa Bertoldi