A produção de qualidade depende de tradição no setor. Os vinhos da França, o macarrão da Itália, o queijo da Suíça, o azeite da Espanha, a azeitona da Grécia e a maçã da Argentina são resultado de séculos de dedicação. O segredo vai passando de geração para geração. Os defeitos vão sendo corrigidos, novos procedimentos vão sendo experimentados e a qualidade vai sendo aprimorada. Enquanto isso, aqui nós temos que por adoçante nas frutas ou então comê-las azedas. Pêssego e mamão são insípidos. Uva itália e rubi, que eram saborosas, são rijas e azedas. Laranja e mexerica são vendidas verdes e empedradas. Abacaxi só com adoçante.
Não há o que substitua a experiência. Não a experiência de simples repetição, mas a experiência com pesquisa empírica, com observação das ocorrências e, nos dias de hoje, com a pesquisa tecnológica. Embora o desenvolvimento da tecnologia permita que inexperientes possam se aventurar em qualquer área, bastando ter capital para adquirir equipamentos e contratar técnicos, dificilmente obtêm resultados iguais aos que têm tradição no setor. Poderão chegar a ser bons se permanecerem dedicados à mesma atividade por longo tempo.
Aqui no Brasil, por falta de políticas públicas que disciplinem e estimulem a produção, sempre houve migração de uma atividade para outra, interrompendo a experiência e dificultando a formação de especialistas e de infra-estrutura adequada. O arroz e o feijão sempre viveram em alternância. Quando o preço do arroz é bom, a maioria passa a plantar arroz e esquece o feijão. Como resultado, o próximo período é de excesso de arroz e escassez de feijão, fazendo cair o preço do arroz e elevando o do feijão. Aí, a situação se inverte e desde que nos conhecemos por gente é assim, com a quebra da continuidade.
Muitos arrancaram seus cafezais e plantaram cana, confiantes no pró-álcool. O preço do petróleo baixou e o programa perdeu o interesse. Agora, com a campanha do biocombustível, o álcool, com o nome de etanol, voltou a despertar interesse, motivando um aumento inacreditável de usinas e expansão do plantio de cana. Mas já há os que estão desistindo da cana e se dedicando ao plantio do milho, porque o preço da cana caiu e o do milho subiu. Vamos ver o que vai acontecer com a laranja e a soja.
A dedicação continuada a uma cultura, além da experiência que aprimora a produção, facilita a união dos pequenos e médios produtores, formando os ‘clusters’ e cooperativas que permitem o compartilhamento na construção de armazéns e estradas, na aquisição de máquinas e sementes e na comercialização. Em entrevista publicada pelo JC (10/12), o Ministro da Agricultura falou em zoneamento agroclimático, que é uma promessa antiga mas que até agora não saiu nada de concreto.
O zoneamento poderia ser feito de acordo com a vocação de cada região e, aos que se dedicassem ao plantio próprio da área, seriam dados incentivos em financiamento, garantia de preço mínimo, melhoria de estradas, construção de armazéns e subsídios. Os que desejassem plantar coisa diferente não seriam impedidos, mas não teriam incentivos. Os riscos também ficariam por sua conta. O zoneamento teria a vantagem de aproveitamento intensivo da terra, diminuindo as chamadas terras improdutivas e, de sobra, também contribuiria para conter o desmatamento. Mas o melhor de todos os resultados seria a formação de uma tradição produtiva.
Vejam o caso do café, que apesar do País ser o maior e mais antigo produtor do mundo, não chegou a formar uma verdadeira tradição, porque a plantação foi mudando de região e os produtores mais antigos foram mudando para outras culturas. Por essa razão, tem perdido mercado para os cafés especiais, que abastecem cafeterias como a “Starbuks”, cujo preço de dez cafezinhos dá para comprar um saco de café comum. Estudos da consultoria Agroconsult (Folha 30/10) mostraram que os cafeicultores mineiros devem R$ 2,2 bilhões em dívidas contraídas com o Funcafé, bancos e fornecedores, porque todo financiamento é feito por conta e risco do produtor. Jaime Paynes, assessor técnico do CNC, diz que “o governo deveria parar de brigar com os países que subsidiam a agricultura e fazer o mesmo também por aqui”.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru