08 de julho de 2026
Articulistas

O ócio com dignidade


| Tempo de leitura: 4 min

Ócio é um conceito que tem sentido negativo desde a Revolução Industrial, no século 18. O trabalho é o que dignifica. Ocioso é vagabundo. Isso para os detentores do capital, porque otimizavam lucros à custa da maquinização do homem, desde Taylor e Ford. Infinitos absurdos organizacionais foram criados ao longo dos séculos e tornaram angustiante o trabalho nas empresas. Para os gregos, tinha uma conotação estritamente física: quem trabalhava era um escravo ou um cidadão de segunda classe. As atividades não-físicas como a política, o estudo, a poesia e a filosofia eram “ociosas”, ou seja, expressões mentais, dignas somente de cidadãos de primeira classe. O ócio pode se transformar em violência, neurose, vício e preguiça, mas pode também se elevar para a arte, a criatividade e a liberdade. É no tempo livre que passamos a maior parte de nossos dias e é nele que devemos concentrar nossas potencialidades.

Estamos saindo de um mundo “industrial” e entrando num outro, “pós-industrial”. No entanto, a velha sociedade continua a viver segundo a organização e os ritmos da idade industrial. Ao longo de uma vida, se estuda 15 ou 20 anos, para depois trabalhar durante 30 ou 35 anos e fazer bem pouco ou quase nada naquele tempo que nos resta antes de morrer. Com o advento das novas tecnologias, os empregos desaparecem e não são mais compensados por novos investimentos e novos tipos de empregos. Marx já tinha entendido isso em 1844: “Como o operário foi degradado a ponto de tornar-se uma máquina, a máquina pode se apresentar como sua concorrente”.

As máquinas, por mais sofisticadas e inteligentes que sejam, não poderão jamais substituir o homem nas atividades criativas. Portanto, a aventura de buscar trabalho terá maior probabilidade de sucesso quanto mais conhecimentos o candidato tiver e for capaz de oferecer serviços do tipo intelectual, científico, artístico, enfim, adequados às necessidades cada vez mais variáveis e personalizadas dos consumidores.

Em síntese, isso é o que demonstrou o sociólogo da Universidade La Sapienza de Roma, Domenico de Masi, em seu livro “O ócio criativo”. Editado no Brasil já em 2000, só agora suscita discussões em Bauru, pelo fato do prefeito bauruense Tuga Angerami tê-lo escolhido para sua leitura de fim-de-ano. Mesmo sendo uma obra ainda de intensa atualidade, os gozadores não perderam a oportunidade de aproveitar a piada pronta. De nada nos adianta um prefeito que trabalhe muito prevaricando, roubando o erário, entediando ou explorando os recursos públicos. No trabalho ou no ócio, o comportamento ético é o mesmo e deve fazer com que todos sejam felizes, sem prejudicar ninguém. Neste caso, e só neste caso, se atinge a plenitude do conhecimento e da qualidade de vida.

Todos os candidatos a prefeito deveriam ler esse livro para entender que a sociedade pós-industrial está centrada na produção de bens imateriais, ou seja, de símbolos, estética e de valores. Para compreender que novas etapas nos esperam, fora daquela política mesquinha a que nós estamos acostumados desde Fortaleza do Espírito Santo. Abrem-se novos campos, cada um com um leque próprio de possibilidades de desenvolvimento. Assim, a informática se desmembrou em telemática. Precisamos saber manipular a informação através do seu uso combinado com o computador. Fora daí, nenhuma empresa ou instituição chega a algum lugar nos tempos modernos.

“E ainda que a tendência crescente dos últimos decênios fizesse uma pausa, mesmo assim as novas conquistas já estocadas na bagagem da humanidade, exigirão uma reestruturação dos sistemas políticos, sociais e psicológicos”, escreveu de Masi. Talvez seja mais fácil inventar progresso que administrá-lo. No magnífico suplemento do JC do primeiro dia do ano, muito se falou e escreveu sobre “gestão pública competente”. Foram elencados 27 adjetivos para qualificar o “prefeito ideal”. Seria o Super-Homem? Poucas opiniões tangenciaram a questão fundamental. Só a tecnologia dá conta da escassez, da tradição retrógrada (caixinha, impunidade, clientelismo), do autoritarismo e do cansaço físico. O futuro pertence àqueles que serão capazes de usar mais a cabeça do que as mãos, ou seja, às pessoas que se dedicarão à análise de sistemas, à pesquisa, à psicologia, ao marketing, às relações públicas, à saúde, à educação, à informação. Peça o livro emprestado ao Tuga e saboreie, enfim, a felicidade do ócio prazeroso. Aquele que Cícero (106-43 a.C.) rotulava de “otium cum dignitate”.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC