08 de julho de 2026
Geral

Condenado, ócio é cada vez mais raro

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Centro de Bauru, tarde da última sexta-feira. Uma pressa exagerada parece dominar as pessoas que circulam pelo Calçadão da rua Batista de Carvalho. “Agora não posso conversar, moço, estou atrasada.” “Ai, moço, desculpe-me, mas tenho de entrar no trabalho dentro de dois minutos.” Pouca gente se mostra disposta a responder a uma pergunta simples: “O que você costuma fazer em seus momentos de descanso?”

Talvez elas não estejam muito animadas em comentar sobre o assunto porque não costumam desfrutar de muitos momentos de lazer no dia-a-dia. “Descanso? Só na hora de dormir. Tenho dois homens para cuidar (um filho de 23 anos e um neto de 2) e uma casa inteira para limpar”, diz a dona de casa Rosmari Cristina da Silva, moradora do Núcleo Édson Francisco Silva, zona noroeste da cidade.

De algumas décadas para cá, o ócio pelo ócio tem se tornado algo cada vez mais raro numa sociedade dominada pelo capitalismo global. Encontrar alguém capaz de “desligar a chave” - ou seja, dedicar o tempo fora do horário de serviço para o lazer descompromissado e contemplativo - se tornou uma tarefa quase impossível.

Quando não estão trabalhando, as pessoas se desdobram para se aprimorar profissionalmente. Freqüentam cursos de MBA, vão à faculdade, fazem aulas de informática, e por aí afora. Culpa das transformações ocasionadas na sociedade pelo neoliberalismo e pela capitalismo em sua fase tardia, dizem os estudiosos do assunto.

“Com a reestruturação produtiva posta em prática nas empresas brasileiras a partir dos anos 90, o trabalhador que antigamente se preparava para executar uma determinada tarefa no decorrer da vida (torneiro mecânico, por exemplo) deixou de ser procurado pelo mercado.

Esse tipo de empregado deu lugar a um profissional que se encontra sob constante processo de aperfeiçoamento. Desde então, para ser considerada ‘empregável’, a pessoa tem de ser capaz de se adaptar com rapidez às novas tecnologias”, explica o sociólogo e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (cuja sigla é CNPq) Uvanderson Vitor Silva, que desenvolve projeto de mestrado pela Faculdade de Filosofia Letras Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) sobre o tema.

Altos índices de desemprego registrados ao redor do planeta também têm ajudado a encolher ainda mais o tempo livre das pessoas. “Nos dias atuais, vivemos o paradoxo da falta de emprego para grande parte da população e do excesso de trabalho para alguns poucos. Essa situação é, a meu ver, estratégica nesta conjuntura econômica em que vivemos, chamada neoliberalismo, pois causa uma pressão para que todos estudem mais, qualifiquem-se mais e percam menos tempo.

As pessoas são exploradas de maneira cada vez mais intensa pelo capital e ainda assim agradecem por terem um emprego”, ressalta a socióloga e professora do departamento de administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da Universidade de São Paulo (USP).

Essa perda do tempo livre para o lazer traz uma série de riscos à saúde dos profissionais. “O trabalho, por assim dizer, provoca microlesões nas estruturas em nossas ósseo-musculares. Isso sem contar o estresse que uma jornada estafante e sem intervalos costuma ocasionar nas pessoas. No dia-a-dia, nosso organismo requer um determinado espaço de tempo para se recuperar. Por isso os períodos de descanso são tão necessários em nossas vidas”, explica Divaldo Bernardes Silva, especialista em medicina do trabalho.