Dizem por aí que brasileiro adora uma fila. Não pode ver uma que vai logo entrando. Na verdade, a fila faz parte da vida de praticamente todo ser humano, seja ele brasileiro ou não. A fila é universal, onipresente e, infelizmente, inevitável. Você pode fugir dela hoje, mas um dia ela te pega, seja num momento de lazer ou por obrigação. Não bastasse isso, temos de conviver com outra figura indesejável: o fura-fila.
Um estudo inédito no País, realizado pela Universidade de Brasília (UnB), aponta que o brasileiro, de uma forma geral, não reage quando uma pessoa “fura” a fila. Cerca de 65% das pessoas que foram ouvidas durante a pesquisa afirmaram que tomariam alguma atitude se notassem a ação desses “espertinhos”. Entretanto, na prática, não foi isso que ficou constatado.
O estudo mostra que, quando as pessoas se deparam com esse tipo de situação, costumam ser cordiais e pacíficas e preferem fingir que não é com elas ou que nada viram. O máximo que normalmente acontece é a pessoa que se sentiu prejudicada cutucar o ombro do “furão” e dizer, de forma tranqüila, que “o fim da fila fica lá atrás”.
As reações das pessoas nas filas foram observadas e analisadas pelo pesquisador Fabio Iglesias, do Instituto de Psicologia da UnB. Ele é o único a estudar o assunto no País, focando mais o lado comportamental. Foram feitos testes em filas de supermercado, cinemas, bancos, rodoviárias, aeroportos, entre outros locais.
Segundo Iglesias, as reações foram mais comuns nas filas dos bancos e nas filas burocráticas, utilizadas para obtenção de documentos, por exemplo. “As pessoas tendem a reagir mais nessas situações porque elas não escolheram estar lá. Se estão é porque foram obrigadas”, explica.
O auxiliar de escritório Almir Prado, 22 anos, enquadra-se no perfil daqueles que não gostam de confusão. Apesar de não concordar com a atitude de quem fura fila, se alguém fizer isso na frente dele é bem provável que não enfrente resistência.
“Às vezes, é melhor ficar quieto do que se envolver em bate-boca. Acho que não compensa”, diz ele. “Furar fila é uma demonstração de falta de respeito com quem chegou antes. É aquele negócio de querer levar vantagem em tudo. Isso depende da consciência de cada um.”
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Mais tolerantes
As pessoas se mostram mais tolerantes quando enfrentam filas em seus momentos de lazer. Isso ocorre, segundo o psicólogo Thiago Cury Machado, 27 anos, porque a pessoa está mais relaxada e está ali por vontade própria. “Quando vai ao cinema, você escolhe o filme que quer assistir, com quem vai assistir, aonde você quer, a hora que você quer. Então, tem muito mais liberdade e muito mais opções. A fila, nesse caso, é tolerada”, compara.
O estudo também detectou que, nas filas obrigatórias, as pessoas tendem a superestimar o tempo de espera. Se alguém aguarda dez minutos para ser atendido, a impressão que fica é que o tempo foi superior a isso.
Segundo o psicólogo, ninguém gosta de esperar, mas a fila é algo com que as pessoas têm de aprender a conviver. De acordo com ele, a aceitação é mais difícil para quem não está acostumado.
Para aqueles que passam por essa situação com certa regularidade, a demora é menos dolorosa, de acordo com o psicólogo, porque, com o tempo, a pessoa se acostuma e já chega ao local sabendo que terá de esperar.
O desconforto da fila é maior entre aqueles que não estão preparados para essa situação. “Se a pessoa enfrenta uma fila sem esperar, a ansiedade, a frustração e o descontentamento são maiores”, aponta.
Isso significa que há um desgaste emocional, uma desorganização psíquica, como definiu o psicólogo, naqueles que são obrigados a enfrentar filas e pouco ou nada podem fazer para evitá-las.
Outro desgaste provocado pelas filas longas e demoradas é o físico. De acordo com o ortopedista Roger Tedde Mansano, ficar muito tempo em pé aumenta a pressão nas veias das pernas, especialmente na parte abaixo do joelho, provocando inchaço, dor, cãibras e cansaço. Quem repete isso várias vezes corre o risco de ter as pernas cheias de varizes.
Mansano lembra ainda que para quem sofre de dores no nervo ciático ficar em pé ou sentado por muito tempo pode agravar o quadro. Nesses casos, a pessoa passa a sentir muitas dores nas costas e nas pernas.
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Vários significados
Para o psicólogo Thiago Cury Machado, a fila pode representar mais do que desrespeito e perda de tempo. Segundo ele, as pessoas podem saber muito a respeito de um lugar olhando para a fila. Se ela se forma na frente de um restaurante ou um barzinho, por exemplo, pode significar que a comida ou o ambiente ali são bons. Uma fila em frente a uma casa noturna fala muito a respeito do público que freqüenta o local.
“Uma fila tem vários significados”, afirma o psicólogo de orientação psicanalista. Ela pode escancarar a falta de estrutura de uma cidade quando seu sistema viário não consegue suportar um grande fluxo de veículos e surgem os congestionamentos. Pode denunciar a falta de médicos em um Posto de Saúde, o tamanho do desemprego em uma cidade, a popularidade de um filme ou de uma banda, entre outros significados.