08 de julho de 2026
Articulistas

Filé mal passado


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Dizem que os fumantes são, aproximadamente, 30% da população, com viés de baixa. Novos adeptos ficarão por conta de jovens com problemas de auto-afirmação (excesso de hormônios e carência de neurônios) e filhos de fumantes, alguns dependentes desde o feto. No entanto, a fumaça dos cigarros continua “espaçosa”.

Por isso, eu evito ir a barzinhos abertos, onde fumantes costumam acender um cigarro após o outro. Eu não entendia a razão dessa compulsão, até me explicarem que o álcool remove a nicotina do organismo e o cérebro, dependente, “pede” que ela seja reposta. Bem, evito barzinhos, mas vou a restaurantes, e muitas cidades têm leis que proíbem o fumo em áreas públicas fechadas. Ocorre que alguns proprietários as burlam criando áreas de fumantes e não-fumantes. É o caso de um dos restaurantes que eu freqüentava.

Eu sempre pedia para ficar na área de não-fumantes o que, pela lei local, deveria ser a todo o ambiente, por ser fechado. Ao mencionar isso, sempre recebi sorrisos amarelos, e, às vezes, precisei aguardar, pois não havia mesa disponível. Em compensação, era comum ver mesas livres na área de fumantes, bem maior, apesar de haver poucos fumando: não mais do que os 30% estatísticos.

Isso já era uma incoerência, mas o absurdo maior estava na inexistência de separação física entre as áreas. Certa vez, perguntei ao garçom como eles proibiam a fumaça de passar de um lado para o outro... Novo sorriso amarelo. Eu já havia observado que o dono era fumante, algo inadequado para quem atua nesse ramo; mas gostávamos do “filé a Daniel” de lá. Assim, retornávamos, eventualmente, torcendo para não sermos incomodados durante a refeição.

Um dia, no entanto, notei que haviam mudado a decoração do restaurante: novos quadros haviam sido colocados nas paredes. Observei-os e percebi que onde estávamos - e só ali - três ou quatro telas, em seqüência, mostravam mulheres fumando. Resolvi brincar com o garçom: perguntei se ali não era área reservada para não-fumantes... Novo sorriso amarelo, mas desta vez com “tons” diferentes. Ele disse que eu não era o primeiro a questionar sobre isso; que já haviam comentado sobre esse arranjo com o proprietário, mas que o autor quisera colocá-las juntas, ali mesmo. Pouco tempo depois veio a conta... Enquanto eu a verificava, o proprietário passou ao meu lado, com um cigarro aceso.

Desta feita, conclui que o “filé a Daniel” - ou qualquer outro prato dali - não valia nem o preço, nem o desrespeito à lei, nem o incômodo, nem a ironia deselegante que o acompanhavam. Desde então, descobrimos melhores, ao ponto, em lugares onde aromas e paladares podem ser apreciados sem desconfortos. Mas leis e reclamações seriam desnecessárias se os fumantes, que param de fumar quando estão comendo, simplesmente respeitassem o direito dos 70%, inclusive crianças, que não fumam. É uma questão de civilidade, para não falar em higiene e saúde. Será que não dá para ficar duas horas sem fumar em recintos públicos fechados ou, simplesmente, sair cinco minutos para fazê-lo?

O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é escritor, engenheiro, professor universitário na Unisantos e Unisanta e atualmente cursa mestrado em educação na Unisantos