Acompanhando apenas a família de um dos policiais envolvidos na morte de Carlos Rodrigues Júnior e vendo o sofrimento, o medo e a agonia que recaíram sobre a mesma, deixemos a mídia e a exploração sensacionalista de lado e nos coloquemos frente à dura realidade vivida, refletindo e, quem sabe, tentando nos colocar no lugar dos policiais ou mesmo de seus pais, esposas e filhos.
Antes de fazermos qualquer menção ao caso, devemos analisá-lo friamente e levar em consideração o País em que vivemos e o risco que corremos diariamente, com apenas a certeza de que poderá se repetir, seja em menor ou maior brutalidade, conosco ou com um de nossos familiares ou amigos. Que Deus livre e proteja nossos filhos!
Qual o objetivo dos meios de comunicação em transformar um menor infrator em mártir, estampando a foto do menor ainda criança, como a de um adolescente exemplar, que veio a óbito em decorrência de torturas realizadas por policiais, apenas pelo simples fato de ter roubado uma motocicleta e por estar armado com um revólver? Onde está a foto do “menor” atual? Será que, como vítima (assim denominado pela mídia), os telespectadores de tal tragédia não têm o direito de conhecê-lo tal como era nos dias atuais? Vemos, repetidas vezes, os rostos de seus “algozes”; será que ninguém teve ou tem a curiosidade de saber como era o rosto da “vítima”, hoje, e não anos atrás?
O que sentiriam as pessoas (as que lêem ou vêem esse assunto entrar em suas casas, todos os dias, através da mídia) se estivessem na pele do mototaxista, que estava trabalhando honestamente? Creio que ao menos uma indignação e uma forte dor moral. Após o ocorrido, o Junião, que se transformou agora em Juninho, vai para sua residência, dormir o sono dos justos, levando consigo a moto subtraída. Mas cabe aqui a questão: e se fosse subtraída de nossa residência? Se, através dela, tirássemos o sustento para nossa família?
Infelizmente, naquele mesmo momento, policiais utilizando uma farda talvez tão sonhada por seus pais, que em seus corações amorosos e dedicados sonhavam ver os filhos combatendo crimes, mesmo que para isso tivessem que deixar, em suas residências, sua família à mercê de nobres infratores (que vemos, na mesma mídia, aterrorizarem, roubarem, estuprarem e até matarem) vão em busca do produto roubado (a motocicleta) e daquele que a subtraiu do verdadeiro dono.
Desgraça ocorrida, embora ainda não elucidada, pois até o momento apenas ouvimos e lemos depoimentos dos parentes e amigos do menor e daqueles que pegam carona em meio à desgraça, com o intuito de se promover. Não vi nenhum membro da família do policial sendo entrevistado, ao contrário da irmã do menor, que capricha no visual para as entrevistas, mostrando indignação, revolta e clamando justiça. Mas onde está o outro lado da moeda? Será que nenhuma pessoa ligada ao policial citado inicialmente também quer justiça?
A verdade é uma só: o menor furtou, o bem foi achado e este se negou até a morte em entregar a arma aos policiais! Não justifico os meios usados, mas também não os condeno, pois ainda não sei até onde isto é verdade, já que nem o direito a uma exumação para elucidar algumas dúvidas lhes foi concedido; então, ao menos que, ao serem julgados, levem em conta todos os anos de trabalho de auto risco que lhes causam estresse e alguns danos psicológicos irreparáveis, dando aos policiais a chance de responderem individualmente e proporcionalmente pela conduta tomada diante de tal fato.
Que profissão é essa que, quando algo escapa ao controle, lhes faz gastar com defensores? O dinheiro para tal defesa, com a miséria que ganham, levarão anos para acumular... A situação se inverteu: Jr. como um mártir, com todos os direitos garantidos - os policiais como meros criminosos, que terão que pagar pra se defender! Ah, sem contar que nem ao menos se espera a justiça se estabelecer, oficialmente; antes mesmo de serem julgados, já estão com seus ganhos laborais reduzidos a um terço do que era antes. Pergunto: policiais não têm família, impostos ou até dívidas? A família de Júnior recebe o que a sociedade acha justiça e as famílias dos policiais sofrem ameaças e dificuldades? Isso será mesmo justiça?
Policiais: vale a pena deixar que suas vidas sejam ameaçadas apenas para defender a sociedade, sendo denominados, quando necessitamos de vocês, heróis, mas quando erram, os rotulamos como criminosos?
Talvez assim deverão pensar as mães de marginais, após este caso: “Já que não temos como mudá-los ou impedi-los, melhor torcer para que sejam mortos por policiais, pois assim nos livramos da agonia diária, teremos amparo psicológico e, ao mesmo tempo, receberemos uma boa indenização, a qual jamais seria recebida com o fruto de trabalho honesto deles”. Como o “espetáculo midiático” não para, para expressar a revolta por termos menos um marginal nas ruas, vamos quebrar os orelhões e todo patrimônio público e particular ao redor! Novamente, o inocente paga pelo pecador, pois aquele que depende de orelhões para se comunicar, o que paga suas contas telefônicas com impostos para manter esse bem público, o dinheiro gasto para sinalizar a cidade, vai pelo ralo...Uma revolta e tudo se destrói. Ações justificam ações? Vale a Lei de Talião: quem com ferro fere, com ferro será ferido?
Chego a imaginar onde estaríamos, caso as famílias de todos os policiais, mortos em serviço, resolvessem quebrar e destruir o patrimônio público, cada vez que um deles fosse morto ou mesmo ferido. Alguém já viu policiais com membros amputados, tendo que se mudar de cidade para evitar perseguições ou algo assim? Ah, mas isso não dá audiência, não é?
E ainda ouvimos falar de direitos humanos! Direitos humanos pra quê? A verdade é única: se cada marginal fosse morto após cometer um crime e os policiais tivessem o mesmo amparo legal e psicológico que os infratores recebem, a sociedade estaria livre do crime. Não defendo a pena de morte, apenas a equivalência dos direitos humanos, tão propagada por nossas instituições e por nossa tão amada mídia...
Gostaria que cada um que defende o menor estivesse na pele do mototaxista, ou na de um dos policiais presos por nos livrar de mais um infrator, ou melhor, tivessem um membro de sua família estuprado, para ver se o tratamento e o apoio seriam os mesmos!
Fica aqui um pedido final: todo fato tem inúmeras facetas, as que conhecemos e as que ignoramos. Não há apenas uma vítima, alguns algozes e muita especulação em cima...há motivos e problemas; antes de criticarmos ou julgarmos, analisemos. Vamos nos lembrar que temos nossos próprios defeitos e limitações. Olhemos para dentro de nós mesmos, só assim poderemos contribuir, efetivamente, para uma sociedade mais justa.
Daniela Simões M. - RG 27.803.554-1