A casa de Laerte de Souza Sanches, 61 anos, tem 28 moradores, mas apenas quatro deles são seres humanos. São 23 pássaros e um cachorro convivendo em harmonia. O aposentado consegue abrigar tantos moradores e convencer os outros familiares devido à sua paixão pelos pássaros e preocupação com o meio ambiente. Ele fabrica gaiolas, mas só usa madeira reciclada, que ganha de amigos ou encontra na rua.
Além disso, todos os seus pássaros são registrados no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama). Ele é um dos sócios-fundadores da Sociedade Ornitológica Regional de Bauru (Sorb), na década de 70, e já organizou competição de canto de pássaros na cidade na década de 80.
A paixão pelos pássaros começou na infância. “Gostava de observá-los e admirava a sua beleza”, conta Sanches. Mas foi só aos 23 anos que aprendeu com um amigo a fazer a primeira gaiola. Perfeccionista, ele gosta de caprichar no acabamento e, dependendo do gosto do cliente, usa até peças folhadas a ouro. A madeira tem que ser reciclada. “Pego madeira que jogam na rua. Outras vezes, ganho alguns pedaços”, conta. No quintal de casa fica seu ateliê de trabalho. Durante várias horas por dia, ele fica lixando e montando as peças. Como as gaiolas são, na maioria das vezes, para clientes que apresentam seus pássaros em competições, ele tem que seguir as medidas para cada raça. Para os curiós, por exemplo, tem que ter entre 42 e 47 centímetros de comprimento, 39 e 45 centímetros de altura e de 22 a 35 centímetros de largura. Demora cerca de três dias para fabricar uma. Mas as mais elaboradas podem demorar até seis meses e custar até R$ 300,00.
Seus próprios pássaros testam as gaiolas. Ele guarda e ainda usa a primeira gaiola que fez, em 1959. Mas o xodó de Sanches é o curió que fica em sua sala. Ele coloca gravações de outras aves para o pássaro ouvir e cantarolar. Até a cachorra Kruska - mistura de boxer com vira-lata - aprecia o som do pássaro. Ela também é amiga deles, pois não deixa nenhum gato entrar na casa.
Em um cantinho especial da residência, na laje, Sanches gosta de colocar os pássaros para apreciar a vista. “Daqui de cima dá para ver quase a cidade inteira”, empolga-se.
Além de fazer gaiolas, o aposentado gosta de consertar cadeiras e outros móveis feitos de palha. “Uma vez peguei uma cadeira que estava em uma caçamba na rua. Consertei-a e chamei o dono para ver. Ele gostou tanto que queria comprá-la de volta”, conta.
A esposa de Sanches, Maria Madalena, estimula o hobby do marido e tem o seu próprio. Ela gosta de peixes e plantas. Em seu quintal, fez uma cascata e um aquário para abrigar os peixes. Decorou o local com vários sapinhos de gesso. No teto, mudas de orquídeas decoram o espaço.
Sanches tem clientes de várias cidades do Brasil, entre eles São Paulo e Rio de Janeiro. Quem entra em sua casa tem certeza de seu amor pelos pássaros. Na decoração, desde o relógio, os quadros e os enfeites lembram aves. “Sou apaixonado por pássaros”, diz. Nem precisava.