09 de julho de 2026
Articulistas

Apenas uma geração


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A defesa que faço da necessidade e da urgência de voltarmos a desenvolver uma política industrial exportadora não tem sido bem compreendida em setores do governo e do próprio empresariado. Dizem: “Se as exportações continuam crescendo, os saldos do comércio se mantém em bom nível, os preços agrícolas e minerais mais do que satisfatórios, onde está a urgência de reinventar uma política que vai depender da intervenção do Estado para privilegiar uns poucos setores escolhidos arbitrariamente?”.

Muitas pessoas, satisfeitas com o bom desempenho da economia, limitam suas observações ao curto prazo, sem se preocupar em enxergar um pouco além da linha do horizonte, digamos uma geração à frente. A idéia, por exemplo, que ao Brasil basta copiar exemplos “virtuosos” de desenvolvimento econômico e social de países que se dão muito bem vivendo das exportações de produtos da agropecuária e minerais, deixa de considerar o problema fundamental: daqui a 20 anos o Brasil terá 250 milhões de habitantes, dos quais 140 a 150 milhões entre 15 e 65 anos que vão precisar estar empregados.

Obviamente as atividades nos setores agro e de mineração, por mais que se desenvolvam, não darão conta de absorver talvez uma décima parte dessa mão de obra. A tendência nesses setores, ao contrário, é de liberar trabalhadores nos próximos anos devido ao rápido desenvolvimento tecnológico e conseqüente aumento da produtividade. Só o crescimento rápido da indústria e do setor de serviços permitirá absorver essa imensa população apta para o trabalho.

Dos “exemplos de sucesso” habitualmente citados, a Austrália terá daqui a duas décadas seus 25 milhões de habitantes, a Nova Zelândia aproximadamente 5 milhões e o Chile pouco mais de 30 milhões. São populações que eventualmente poderão continuar a se sustentar com as exportações de suas commodities, (basicamente carnes, minérios e frutas) mas claramente não servem de paradigma. Às vezes as explicações no nível técnico não são muito adequadas para convencer as pessoas, o que se consegue de forma até inesperada com exemplos bem simples. Tive uma lição dessas no domingo passado quando participava do “Canal Livre” na TV Bandeirantes e para destacar a diferença de dimensão do problema da geração de emprego daqui a 20 anos no Brasil e na Nova Zelândia calculei que a população total deste país não será maior do que a da “favela do Alemão”, no Rio de Janeiro.

Convenci-me, pela repercussão dos dias seguintes, que tal explicação ajudou muito a “cair a ficha” para pessoas que antes aceitavam como boa a idéia de nos alinharmos com as economias exportadoras de matérias primas. Sem uma política de suporte aos investimentos para expansão das exportações industriais e de serviços (como vem fazendo com sucesso a China e a Índia, apenas para citar dois “emergentes”) não haverá onde colocar os milhões de brasileiros que vão demandar o mercado de trabalho, da mesma forma que não criamos empregos suficientes nos últimos vinte anos pela incapacidade de pensar uma geração à frente.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br