09 de julho de 2026
Geral

Sagrado, saquê conquista cada vez mais

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Inventado provavelmente no século 3 a.C., na província de Nara, o saquê é um elemento tão importante na cultura japonesa que chega a ser utilizado em rituais xintoístas. Essa “aura” sagrada que cerca a bebida não impediu que ela perdesse espaço em sua terra natal. Em 1872, quando o fermentado feito à base de arroz representava um dos principais itens da economia do país, havia cerca de 30 mil fabricantes do produto na “Terra do Sol Nascente”. Atualmente esse número não passa de 2 mil.

Mesmo perdendo espaço no lugar onde teve origem, nunca o saquê foi tão popular como agora. De 2005 para 2006, as exportações da bebida para os Estados Unidos cresceram em cerca de 10%, totalizando 2,75 bilhões de ienes (aproximadamente R$ 45,4 milhões).

Seguindo essa tendência mundial, a bebida-símbolo do Japão também vem atraindo um grande número de apreciadores no Brasil. Não que a relação do País com o saquê seja coisa recente: na verdade, desde os anos 30 do século passado, o fermentado vem sendo produzido em terras tupiniquins, em uma fábrica instalada na fazenda Tozan, em Campinas, construída a mando do barão Hisaya Iwasaki, então presidente do Grupo Mitsubishi.

A medida visaria atender às necessidades dos imigrantes, que na época ainda não teriam se adaptado à cachaça brasileira, de sabor forte e gradação alcoólica alta. Hoje, todavia, mesmo entre os descendentes de japoneses há quem conteste essa versão.

“Embora em minha casa ninguém fosse dado ao álcool, lembro que os japoneses que vieram para cá se deram muito bem com as bebidas brasileiras. Tanto que alguns colonos chegavam a comprar garrafões de caninha para deixar armazenados”, recorda-se o assessor parlamentar bauruense Massaru Ogino, 72 anos.

Seja como for, japoneses apreciadores do fermentado de arroz que moravam no Brasil tiveram de se contentar, durante muito tempo, com o Azuma Kirin, versão nacional da bebida sagrada - a não ser, é claro, que tivessem condições de adquirir marcas importadas, em geral bem mais caras. Somente em 2006 a Tozan ganhou uma concorrente no País, a Sakura, fabricante do Daiti Ever.

Evolução

Proprietário de dois restaurantes de culinária oriental localizados na zona sul da cidade - o Tayu e o Sin Tae -, Gustavo Moreira Cunha se tornou uma espécie de especialista em saquê. Nos últimos meses ele tem se dedicado a estudar a bebida para poder aprimorar o atendimento a seus clientes.

“O saquê passou por uma grande evolução nos últimos anos. Ele deixou de ser uma mera bebida; hoje, está mais para um harmonizante, ou seja, é um produto que combina com diferentes tipos de alimentos e ocasiões”, explica.

Bebidas do tipo honjoso - Cunha indica o Hakushika Tradicional - são mais apropriados para acompanhar pratos leves. “Esse tipo cai bem com frango e também costuma dar drinques ótimos”, afirma.

Drinques à base de frutas, aliás, têm ajudado a tornar a bebida bastante popular entre os brasileiros. Saquês do tipo honjoso feitos a partir do arroz yamadanishiki, por sua vez, cairiam melhor com alimentos mais gordurosos, como o yakitori e a yakisoba. Já a bebida da variedade ginjo - Cunha indica o Hakushika Ginjo - seria apropriada para ser consumida pura.