08 de julho de 2026
Geral

Brasileiro lidera consumo da bebida

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Anteriormente restrito a estabelecimentos típicos, atualmente o saquê pode ser encontrado até mesmo em churrascarias e bares da moda. O perfil do público apreciador do produto também mudou no decorrer dos anos. Se, antes, pessoas de ascendência nipônica representavam os principais consumidores da bebida no País, hoje elas são minoria.

Atualmente, indivíduos sem qualquer ligação com a “Terra do Sol Nascente” são os que mais costumam comprar o saquê - mesmo nos restaurantes típicos e nas lojas de produtos orientais.

“Talvez pelo fato de se tratar de um produto exótico para os padrões brasileiros, as pessoas de origem ocidental são as que mais procuram o saquê hoje em dia”, garante o bauruense Paulo Nakaiama, proprietário do Kanpai, restaurante de cozinha oriental localizado no Jardim América zona sul da cidade.

A informação pode ser confirmada em outros estabelecimentos espalhados ao redor da cidade. Na Dai-iti Store, loja de produtos orientais localizada na Vila Falcão (zona oeste de Bauru), descendentes de japoneses também são minoria entre os compradores da bebida.

“Aqui, quem mais procura saquê é ‘brasileiro’ e dono de restaurante”, afirma Kenji Osajima, dono do estabelecimento. Na loja, é possível encontrar desde versões nacionais da bebida, como o Daiti Ever e o Azuma Kirin, até produtos importados, como o Sho Chiku Bai (fabricado na cidade de Berkeley, no Estado norte-americano da California) e o Hakushika Gold, produzido no Japão, cuja garrafa leva grãos de ouro em seu interior.

Drinques

Bebida ofertada aos deuses nos rituais xintoístas, o saquê certamente não foi concebido para ser consumido em forma de coquetel. Isso não impediu, porém, que a criatividade dos brasileiros inventasse novos usos para o produto.

Feitas à base de frutas - lichia, carambola, lima da pérsia, tangerina - as saqueirinhas ou saqueiríssimas (a denominação varia de acordo com o estabelecimento) vêm ganhando um número cada vez maior de adeptos, sobretudo entre as mulheres, e isso por uma razão bastante simples. “Os drinques de saquê costumam ser mais ‘fracos’ do que os feitos com destilados (vodka ou cachaça)”, explica Osagima.

O primeiro estabelecimento a oferecer drinques de saquê na cidade foi o Tayu, a partir de 2001. Atualmente os coquetéis feitos à base da bebida podem ser encontrados até em ambientes que não têm qualquer ligação com a cultura japonesa.

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Brinde para a vitória

Popularizado ao redor do mundo, o saquê ainda mantém suas raízes intimamente ligadas à história do povo japonês. O kagami-wari, por exemplo - um dos rituais mais tradicionais do “País do Sol Nascente” que envolvem a bebida - data da época dos samurais.

Segundo conta a tradição, em meados do século 17 o shogun (governante do Japão no período feudal) Tokugawa Iemetsu iria enfrentar uma batalha da qual dificilmente conseguiria voltar com vida.

“Antes de ir para a luta, com um copo de saquê na mão, ele fez um brinde diante do espelho e, em seguida, clamou pela vitória no confronto”, conta o engenheiro elétrico bauruense Eizo Hasunuma, 58 anos.

Logo após o brinde, Tokugawa teria quebrado o espelho e partido para a batalha, na qual acabou vitorioso. Se foi graças a alguma propriedade sagrada do saquê ou não, isso ninguém pode afirmar, mas o fato é que o shogun passou a repetir o gesto antes das lutas que iria enfrentar - e, desde então, nunca mais foi derrotado em campo de batalha.

Pelo visto, o sucesso obtido por Tokugawa parece ter feito a cabeça dos japoneses, tanto que o kagami-wari se converteu em uma verdadeira obrigação para eles nas ocasiões especiais. Atualmente, um espelho é colocado sobre barril de saquê e quebrado com um martelo de madeira. Em seguida, a bebida é servida e é feito o brinde utilizando a expressão “Kampai!” (equivalente ao “Saúde!” utilizado pelos brasileiros).