09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: André Graziato Cury

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 10 min

Nos últimos cinco anos, o tenista André Graziato Cury, 31 anos, chegou a 30 finais de campeonatos. Ganhou metade delas. Somente no ano passado, foram cinco títulos disputados. Somando tudo que já ganhou nas quadras, André coleciona cerca de 130 troféus. Até o fim da carreira, ele pretende atingir a marca alcançada por seu pai, o também tenista Carlos Eduardo Cury, que em 35 anos de disputas recebeu cerca de 300 troféus.

André deu suas primeiras raquetadas aos 4 anos nas quadras da Sociedade Hípica de Bauru. Dois anos mais tarde, passou a treinar com Cláudio Sacomandi na sede do Bauru Tênis Clube (BTC). Com 7 anos já participava de torneios por todo o Brasil. Na categoria juvenil, André jogou diversas vezes com Gustavo Kuerten, que mais tarde se tornaria o principal tenista brasileiro e um dos melhores do mundo.

Entretanto, a principal conquista do tenista bauruense foi ser incluído no ranking da Associação de Tenistas Profissionais (ATP). Isso ocorreu em 2003, após disputar um torneio internacional em Guarulhos. Depois de passar por quatro adversários no qualifying do torneio, entre eles um argentino (sempre um adversário difícil de ser batido) e Tomas Bellucci, que hoje é o número dois do Brasil, André venceu a primeira rodada da chave principal, conquistando um ponto no ranking da ATP, um privilégio para poucos. Atualmente, somente 60 tenistas brasileiros fazem parte do ranking da ATP, que classifica os melhores do mundo.

Se André herdou do pai a paixão pelo tênis, o avô Eduardo Cury foi a principal influência em sua carreira profissional como corretor de seguros. Na entrevista a seguir, o tenista bauruense fala, entre outros assuntos, dessas duas paixões.

Jornal da Cidade - Ao invés de se dedicar à vida de atleta e de corretor de seguros, você nunca pensou em ser médico, já que parte da sua família é formada em medicina?

André Graziato Cury - De fato, meu pai (Carlos Eduardo Cury) é médico reumatologista e tenho um irmão que faz oftalmologia em São José do Rio Preto, mas nunca gostei muito de medicina. Preferi fazer um curso de administração de empresas e me tornei um securitário (corretor de seguros), seguindo assim a carreira do meu avô, Eduardo Cury, com quem trabalhei durante 12 anos.

JC - E como surgiu essa paixão pelas raquetes?

André - Meu pai é um apaixonado pelo tênis e ele sempre me incentivou a praticar o esporte. Quando eu era criança, sempre ia com ele para a Sociedade Hípica. E lá, a gente sempre encontrava minha prima Márcia Cury, que também jogava. E ela começou a ensinar eu e meu irmão (Carlos Eduardo Cury Júnior) a jogar. Minhas primeiras raquetadas foram com ela. Depois de uns dois anos, fui para a sede social do Bauru Tênis Clube, onde comecei a jogar com o Cláudio Sacomandi. Depois passei a treinar para as competições com o Celso Sacomandi, filho do Cláudio. Foi assim que eu comecei minha carreira. Com 7 anos, eu já viajava pelo Brasil para participar de campeonatos.

JC - O auge da sua carreira foi a conquista de um ponto, em 2003, no ranking da ATP. Como foi isso?

André - Quando um tenista não tem nenhum ponto nesse ranking, ele sempre precisa passar pelo qualifying de um torneio antes de chegar à chave principal. Para conquistar um ponto no ranking da ATP é preciso ganhar quatro jogos do qualifying e um jogo na chave principal. É muito difícil.

JC - E onde foi que você conseguiu isso?

André - Foi em um torneio internacional em Guarulhos, em 2003. Ganhei os quatro jogos do qualifying e um da chave principal. Ganhei de um argentino no qualifying, algo difícil porque eles são muito competitivos, e do brasileiro Tomas Bellucci, que hoje é o tenista número dois do Brasil. Na época, ele tinha 16 anos. Na última rodada do qualifying eu ganhei dele. Depois, eu ganhei a primeira rodada da chave principal, mas perdi na segunda. Foi assim que eu consegui um ponto na ATP. Existem cerca de 1.400 tenistas do mundo todo ranqueados na ATP. Do Brasil, existem hoje cerca de 60 tenistas nesse ranking. Desses, uns dez devem ter um ponto.

JC - Qual é o tenista brasileiro melhor classificado no ranking da ATP?

André - Se eu não me engano é o Marcos Daniel. Depois vem o Tomas Bellucci, que é bastante jovem e vem crescendo muito. O Flávio Saretta está voltando a jogar depois de seis meses afastado das quadras. Tem o Fábio Mello, que caiu bastante depois de chegar a ser o 45º melhor do mundo. Deve ter uns três ou quatro tenistas brasileiros com chances de se destacarem em breve.

JC - O que muda para um tenista obter um ponto no ranking da ATP?

André - Ele começa a participar de mais torneios. Como cabeça de chave dos qualifyings, ele tem mais chance de avançar porque enfrenta adversários teoricamente mais fracos. A validade desse ponto é de um ano. Se nesse tempo você não conquistar nenhum outro, você perde o ponto que tem. Como eu não fiz nenhum ponto em 2004, hoje eu estou fora do ranking.

JC - Mas você manteve o ritmo das competições?

André - Não. Entre 2003 e 2004, eu participei de muitos torneios de nível internacional, mas depois disso dei uma parada. Tenho jogado mais os torneios estaduais.

JC - Qual a razão da mudança?

André - Os torneios internacionais duram de três a cinco dias. Como eu tenho uma carreira de corretor de seguros, não tenho muito tempo para ficar viajando. E para participar desses torneios é preciso treinar bastante, de quatro a cinco horas por dia para conseguir manter o nível tanto fisicamente como tecnicamente, porque os adversários são mais difíceis.

JC - E hoje, como é sua rotina de treinamentos?

André - Normalmente, eu faço uma hora de academia na parte da manhã e à tarde jogo durante uma hora e meia, mais ou menos. Nos fins de semana, jogo os torneios da Federação Paulista de Tênis no nível primeira classe, até 34 anos. No ano passado, eu participei de 13 torneios e cheguei à final em cinco deles. Fui campeão do Master no fim do ano passado, um torneio que reúne os oito melhores tenistas ranqueados durante o ano.

JC - Você pensa em se dedicar profissionalmente ao tênis?

André - Agora em 2008 estou pensando em voltar a jogar alguns torneios de nível profissional. Quero aproveitar as competições que serão realizadas em São Paulo, Curitiba e Florianópolis para levar alguns tenistas jovens de Bauru e motivá-los a jogar esses torneios. Quanto antes começarem, melhor. Porque assim adquirem experiência. Aí eu aproveito e jogo também.

JC - Com um pouco de incentivo, Bauru tem condições de revelar grandes atletas?

André - Até tem. Não como antigamente, quando Bauru era considerado um centro brasileiro de tênis. A cidade já teve vários tenistas entre os melhores do País. O nível já foi bem melhor do que hoje, mas ainda temos bons tenistas.

JC - E o que precisa para a cidade voltar a ter o destaque nacional de antigamente?

André - Na verdade, precisa de mais incentivo. Seria importante a criação de um centro de treinamento na cidade. Hoje, o esporte está mais concentrado nos clubes particulares, onde nem todo mundo tem acesso. Não são todos também que têm condições de comprar o material necessário, que é bem caro. Não é como o futebol ou o basquete, que com apenas uma bola é possível jogar. Para se ter uma idéia, nos Estados Unidos existem cerca de 6 milhões de tenistas, enquanto no Brasil são cerca de 400 mil. A diferença é muito grande.

JC - A realidade vivida em Bauru é a mesma do País?

André - O Brasil poderia ter dado uma guinada boa no tênis a partir de 1997, quando Gustavo Kuerten chegou a número um do mundo. O esporte ganhou uma popularidade inédita, mas isso foi pouco explorado. Faltou criar centros de treinamentos em algumas Capitais como é feito em Buenos Aires. Hoje, entre os 100 melhores tenistas do mundo, existem 20 argentinos. Isso é um reflexo da estrutura montada por lá. Acho que o Brasil, por meio da Confederação, poderia ter feito mais coisas após o aparecimento de Gustavo Kuerten. Acho que vai ser muito difícil um brasileiro voltar a ser o número um do mundo nos próximos 200 anos. Deixamos passar uma grande chance de popularizar o tênis por aqui. Inclusive, gostaria de abrir um parênteses para dizer que, como temos a mesma idade, eu cheguei a jogar várias vezes com Gustavo Kuerten na categoria juvenil.

JC - Afora o tênis, tem algum outro esporte que desperta seu interesse?

André - Já gostei muito de futebol. Gosto de todos os esportes, tudo o que é competitivo eu acho legal. Mas o meu preferido é mesmo o tênis. Eu não sei o que eu faria se tivesse de parar de jogar. Até gosto de jogar futebol, mas faz tempo que não brinco porque prefiro preservar meus joelhos. Não quero correr o risco de uma lesão.

JC - Você faz o quê para relaxar?

André - Eu só consigo relaxar quando estou jogando. Mas também gosto de sair com os amigos, de viajar com a esposa, fazer um churrasco em casa.

JC - Você disse que joga pouco futebol, mas tem costume de acompanhar os jogos pela TV ou no estádio?

André - Tenho. Eu já fui várias vezes ao Morumbi e Pacaembu assistir aos jogos do Corinthians contra Palmeiras, São Paulo. Meu pai sempre gostou muito disso e eu e meu irmão sempre acompanhávamos ele nas viagens para São Paulo para assistir aos jogos. Então, acabei herdando essa paixão pelo Corinthians graças ao meu pai. Também somos noroestinos fanáticos. Vou sempre ao Estádio Alfredo de Castilho acompanhado do meu sogro palmeirense.

JC - Quais os planos para o futuro?

André - Gostaria de montar um centro de treinamento para poder trazer também jogadores de outras cidades, como Jaú, Lençóis Paulista, Brotas. Mas a minha intenção no momento é continuar trabalhando com seguros e permanecer jogando meus torneios de fim de semana da Federação Paulista e eventualmente jogar alguns torneios internacionais este ano.

JC - Você acha que consegue jogar até quando?

André - Estou com 31 anos. Acho que se eu conseguir manter uma certa regularidade na academia, acredito que até os 34 anos dá para jogar bem. Depois disso, fica mais complicado. A musculatura não resiste tanto.

JC - Dá para ganhar dinheiro com o tênis no Brasil?

André - Como eu disse no começo, existem cerca de 60 tenistas brasileiros no ranking da ATP. Desses, no máximo quatro tenistas estão ganhando dinheiro com o esporte. O resto está empatando ou perdendo dinheiro com o tênis. Hoje, para ganhar dinheiro é preciso estar entre os 90 primeiros do mundo, que são aqueles que disputam os torneios maiores, como os quatro Grand Slam: Wimbledon, Roland Garros, US Open e Aberto da Austrália. Só de entrar nesses torneios você ganha cerca de US$ 17 mil. Multiplicando por quatro dá mais de US$ 60 mil no ano.

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Perfil

Nome: André Graziato Cury

Idade: 31 anos

Local de nascimento: Bauru

Esposa: Marina de Castro Carvalho Cury

Hobby: Sair com amigos

Livro de cabeceira: Não gosto de ler

Filme: Homens de Honra

Estilo musical predileto: Rock pop

Time do coração: Corinthians

Para quem daria nota 10: Para meu avô, Eduardo Cury

Para quem daria nota 0: Para a violência