09 de julho de 2026
Articulistas

A febre


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Soube da morte da mãe do amigo, sem ânimo de ir ao velório. No primeiro encontro dentre os dois, para enfatizar o quanto estava condoído, em seguida aos pêsames perguntou: “E de que morreu sua mãezinha?”. “De febre amarela” - foi a resposta. “Uma cor tão bonita...” - consolou o outro. Ninguém quer morrer amarelo, azul ou vermelho. A cor da morte é o roxo, quando não tem a impressionante palidez dos náufragos pintados por Géricault (A balsa da Medusa, 1820).

Oswaldo Cruz deve estar contente em algum lugar, ao saber do interesse dos brasileiros em se vacinarem contra a febre amarela. O Rio de Janeiro, no final do século XIX era chamado de “porto maldito”, ou “túmulo do estrangeiro”, no dizer de Olavo Bilac. Febre amarela, difteria, tifo, tuberculose, lepra e varíola eram comuns. Nossos “cientistas” adotavam a “teoria miasmática”, ou seja, o contágio vinha das emanações fétidas de animais ou vegetais em decomposição nos mangues. Era a mesma crença dos tempos do Império Romano. Daí mal-aria, ar ruim. Moço, recém chegado da Europa, Oswaldo Cruz saiu pelas ruas matando mosquito com nome complicado - aedes aegypti, o mesmo da dengue. Foi um espanto. Nem mesmo o presidente Rodrigues Alves se convenceu. O jovem cientista e suas brigadas de mata-mosquitos percorriam a cidade lavando caixas d´água, desinfetando ralos e bueiros, limpando telhados e calhas. Cada caso de doença era obrigatoriamente comunicado às autoridades. Oswaldo Cruz virou personagem obsessivo dos caricaturistas, naquela época não tão inteligentes e criativos como o nosso Fernando, do JC. Genial o Lula com a caixa de charutos cubanos para espantar mosquitos.

Em 1904, Oswaldo Cruz conseguiu que o governo aprovasse uma lei que obrigava o povo a se vacinar. Não “pegou”. A população se revoltou, os jornais apoiaram os protestos. Chamavam os vacinadores de bando de sátiros que só queriam ver os braços e coxas desnudas das mulheres. Até Rui Barbosa liderou os positivistas contra esse “código de torturas”. O Estado não tinha direito de interferir na decisão individual de vacinar-se ou não. “Assim como o direito veda ao Poder Humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme. Envenenar-me com a introdução no meu sangue, de um vírus...” Houve quebra-quebra, canções de protesto. Mas, o castigo alado aconteceu quatro anos depois. Um novo surto de febre amarela matou 9 mil pessoas no Rio de Janeiro. Só então começaram a compreender a importância da vacinação. O traço do cartunista tornou-se benigno, os ataques da imprensa foram progressivamente substituídos por elogios. Hoje, fazem fila para se inocular e o jornal registra protestos. Mas, pela falta de vacinas.

Em 1907, no governo Afonso Pena, Oswaldo Cruz declarou guerra aos ratos que infestavam o Rio e espalhavam a peste bubônica. Cada funcionário da Saúde era obrigado a apresentar 150 ratos/mês, sob pena de demissão. Acima dessa cota havia uma gratificação de 300 reis por animal abatido. Logo depois o pagamento foi estendido a qualquer cidadão. Surgiu o ofício de “ratoeiro”. Compravam a baixo preço para revender à Saúde Pública por 200 mil réis, dez vezes mais. É desse tempo aquela polca carnavalesca, “Rato-Rato-Rato”. A malandragem começou a criar ratos para vender às brigadas de Oswaldo Cruz. Importavam de outras cidades. A Higiene ficou devendo tanto a um tal Amaral, “negociante de ratos”, que não tinha mais como pagá-lo. Processado, jurou que os ratos eram todos “cariocas, nascidos e procriados no Distrito Federal”.

O cientista fundou Manguinhos, onde hoje são fabricadas as vacinas contra a febre amarela. Até então eram exportadas devido a baixa utilização no Brasil. Agora, a demanda cresceu porque em todo lugar as pessoas ainda não se deram conta da obrigação de combater o mosquito vetor. Os cientistas americanos estão trabalhando para que o aedes seja vítima da própria picada. “O sangue será sua última refeição” - dizem eles. Acharam um jeito de interferir no metabolismo do mosquito de forma a inibir certas enzimas e levá-lo à morte se ingerir sangue. Daqui a pouco, a briga vai ser com as Ongs. Impacto ambiental. Vislumbro manifestações ruidosas de protesto no Calçadão e faixas: “Salvemos o mosquito!”, “O aedes egypti é nosso!”. É aedes, é aedes, aedes, édes-édes. Ra-tchim-bum. Egypti, Egypti...

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC