10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Cine Bauru: fim de uma era romântica


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Foi com surpresa, saudade e tristeza que no dia 7/1, uma segunda-feira, li na página 15 do JC, que, depois de 60 anos de história, o Cine Bauru deveria encerrar suas atividades.

Com a desativação do Cine Bauru, encerra-se uma era romântica de bons filmes com ótimos atores. Como freqüentador assíduo de suas sessões cinematográficas na quadra 7 da rua 1º de Agosto, minha memória se volta para os anos 40 e 50, quando existiam no Brasil mais de 4000 salas espalhadas por todas as regiões do nosso território. Os ingressos custavam bem menos do que o equivalente a um dólar, e as famílias tinham o hábito de ver muitos filmes, praticamente todas as noites. As sessões eram também pretexto para encontros e desencontros, conversas, namoros, sem discriminação de classes. Hoje em dia, o cinema transformou-se em apenas um ingrediente a mais entre as atrações oferecidas pelos “shoppings”: vitrinas, comidas, jogos, pipoca e refrigerantes.

Muitos fatores, creio eu, levaram o Cine Bauru a fechar as portas: redução de público, inviabilidade financeira em cumprir exigências legais que cobram adaptações na infra-estrutura do prédio, concorrência de outras salas de cinema mais bem aparelhadas, cópias em VHS e DVD, a pirataria em ação.

Os filmes sacros provocavam filas enormes nas portas do Cine Bauru. Havia duas sessões, às dezenove e às vinte e uma horas. Dentre os filmes sacros destacamos: “Os Dez Mandamentos”, 1956; “O Manto Sagrado”, 1953 e “Marcelino Pão e Vinho”, 1955, filme aplaudido em Cannes e vencedor do Festival de Berlim.

A saudade é o colorido mais bonito da vida. É como uma tela em branco em que vamos marcando com fortes pinceladas, cada momento que enriqueceu o nosso passado, muitas vezes visto em preto e branco. Assim é o coração de um saudosista. Quer sempre voltar no tempo e vê, em cada canto, a história mais linda e interessante que a vida escreveu.

Façamos juntos uma viagem pelo tempo, recordando o nosso fascínio e admiração pelos heróis dos filmes a que assistimos, quando ainda infanto-juvenis, nas tardes de domingo ou nas noites quentes no Cine Bauru, hoje desativado.

Início dos anos 50. O cinema era em preto e branco. No escurinho, víamos os filmes de bangue-bangue, depois promovidos a “westerns”, desenrolava-se na tela um mundo extremamente simplificado, quando o bem e o mal se confundiam. O mocinho usava roupa branca, com chapéu branco, montado num cavalo branco. O bandido vestia roupa preta, chapéu preto, cavalgando um cavalo preto.

Depois veio a conquista do Oeste: de um lado, a cavalaria; de outro, os peles-vermelhas. Inconfundíveis. A seguir, os filmes de guerra, ainda em preto e branco, com narrativas da Segunda Guerra Mundial. Praias atravancadas de obstáculos e rolos de arame farpado, estradas barrentas e trincheiras enlameadas na noite escura. John Wayne fazia o papel do capitão do exército norte-americano. O Mickey Rooney acendeu um cigarro, imprudente, e levou uma bala na testa. O inimigo era o exército de ocupação nazista. Ainda me lembro da íntima insatisfação, quando John Wayne rastejava pelo terreno, contornava o “bunker” dos nazistas e degolava, um a um, os boches da casamata. No final, bandeira tremulando ao vento, ao som do hino dos fuzileiros navais, os mocinhos vencedores recebiam os aplausos da multidão. Eu aplaudia também.

Quem não se lembra, na década de 60, do Victor Mature fazendo o papel do general Custer. Com o progresso, a fita era colorida. A tela mostrava as amplas pradarias americanas, rios de águas cristalinas, logo manchadas pelo sangue dos Sioux, dos Navajos, dos Troqueses e outros bandidos. Sim, eram bandidos! Os mocinhos estavam do outro lado: na cavalaria ianque. Se os brancos venciam, era vitória. Se perdiam, era massacre.

E como vibrávamos e aplaudíamos, quando uma bala certeira derrubava o índio que tentava galgar a paliçada do forte com uma faquinha atravessada nos dentes. Se um comando de nativos se acercava do forte na escuridão da noite, nós assoviávamos, batíamos os pés no chão, fazíamos um barulho infernal para alertar a sentinela que cochilava.

Na década de 70, todo mundo deve se lembrar do Burt Lancaster fazendo o papel do piloto norte-americano que lutava no Pacífico. Pearl Harbour está na memória de todos e justifica (como um 11 de Setembro) qualquer tipo de retaliação. Muitos até se lembram do nome dado ao B-29: Enola Gay, pintada na fuselagem do avião-bombadeiro que levava uma bomba atômica, a primeira da história. E nós, atentos, torcíamos para que as baterias antiaéreas não atingissem a aeronave! Para que algum “zero” não surgisse detrás de uma nuvem para metralhar nossos heróis.

Também está gravado em nossa memória, o suspense da aproximação de Nagazaki, a visão em “close” do visor do bombadeiro, com as ilhas concêntricas que identificavam o alvo previamente escolhido. Quando a bomba começou a cair, afundávamo-nos na poltrona, respirávamos fundo, apertávamos as mãos e rangíamos os dentes para que ela acertasse bem na mosca. E acertou! Com alívio, víamos o imenso cogumelo que foi crescendo no céu do Japão indefeso. De volta à pátria, os heróis da missão foram todos condecorados.

Foi assim que me tornei maniqueu, embasado nos dois princípios opostos do bem e do mal. Bem e mal com princípios eternos. Em nossos diálogos antes dos filmes, a questão inicial era sempre a mesma: “De que lado você está?’.

Aí vem a vida e ensina, corrige, apara as arestas. Sobem à tona as fraquezas dos heróis. Sua armadura cai na lama dos caminhos. Napoleão tem dor de barriga. O general escorrega de seu cavalo. A garrucha do mocinho falha na hora “H”. E todo mundo ri às gargalhadas. Bendito Charles Chaplin que, no papel de Carlitos, nos ensinou a rir do Grande Ditador! É a gargalhada da multidão que aproxima a vítima do agressor.

Quantas gerações viveram comigo esses momentos que o Cine Bauru nos proporcionou. A vida para quem tem mais de 50 anos, é sempre pontilhada de muita saudade. É a lei natural. Nascemos, crescemos, ficamos velhos e sentimos saudade. Quem não te saudade do passado e não vive de recordações é porque não viveu plenamente. Talvez não tenha escrito cartas de amor, freqüentado as sessões do Cine Bauru, guardado lugar no cinema para o namorado entrar depois que as luzes se apagassem.

Que os cinéfilos me perdoem se não fui muito fiel aos detalhes expostos. Devo confessar-lhes, porém, que a saudade bateu forte na redação deste artigo.

Gino Crês