09 de julho de 2026
Polícia

PMs revelam detalhes da morte de menor

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

O Jornal da Cidade teve acesso aos depoimentos que os policiais militares envolvidos na morte do adolescente Carlos Rodrigues Júnior, 15 anos, deram à Polícia Civil. Dos seis policiais, apenas dois ratificaram os relatos que tinham feito no inquérito da Polícia Militar (PM) sobre a morte do menor, no último dia 15 de dezembro em Bauru. Os outros forneceram mais detalhes sobre a ocorrência. Os dois grupos se acusam mutuamente pela tortura ao adolescente acusado de roubar uma motocicleta.

Os relatos do tenente Roger Vittiver e do soldado Emerson Ferreira foram curtos por terem somente acrescentado dados quem teria sido informados à PM - o JC não teve acesso aos depoimentos do inquérito militar. Os policiais trocam acusações. De um lado, o tenente Roger e o soldado Emerson alegam que não presenciaram a tortura que levou o menor à morte. Do outro, o cabo Gérson Gonzaga da Silva e os soldados Maurício Augusto Delasta e Juliano Arcângelo Bonini apontam os outros dois como sendo os autores da violência. O tenente aponta Delasta e Arcângelo como os autores das agressões. Já Ottaviani diz que ficou com a família do rapaz no momento que as agressões ocorreram.

Em seu depoimento, o tenente afirmou que delegou missões específicas para cada policial durante a busca e apreensão na casa de Rodrigues Júnior. A incumbência de vistoriar o cômodo do adolescente, disse, foi dada a Delasta e a Arcângelo. Ele também disse que precisou deixar o quarto algumas vezes e que, durante estas saídas, os policiais agiram por conta própria e traído a sua confiança. O oficial também informa que estes policiais teriam tentado encobertar o ocorrido, tentando esconder o fio usado para aplicar choques.

Já o soldado Emerson sustentou o tempo todo que ficou fora da casa e do quarto do garoto, vigiando a viatura que dirigia naquela noite. Em seu depoimento, ele disse ratificar tudo o que disse ao inquérito da PM e afirmou ter sido “apunhalado pelas costas pelos meus próprios companheiros de farda”. Perguntado se teria ouvido os gemidos do adolescente que estava sendo agredido, ele negou.

Tortura

Os policiais da Base Leste contam que não queriam ter ido à casa do adolescente. Gonzaga, Ottaviani, Delasta e Arcângelo alegaram que antes do tenente Roger dar-lhes a tarefa, eles teriam decidido passar para o policiamento reservado, que faria campana no local até a equipe da manhã seguinte fazer uma vistoria na casa.

Foi quando teria aparecido o tenente Roger e o soldado Emerson. Após falar com a vítima do roubo, segundo os policiais, Roger determinou que todos fossem até a casa do adolescente averiguar se a moto estava lá. No endereço, os policiais verificaram, por cima do muro, que havia uma motocicleta no quintal. Pela casa vizinha, o tenente confirmou o número da placa. “É bingo, é a moto, é a moto, vamos invadir”, teria dito o oficial.

Ao entrar na casa, Ottaviani, Delasta, Arcângelo e Gonzaga contam que Roger teria batido na porta, gritando repetida vezes: “É a polícia, a casa está cercada, abre a porta”. A mãe do adolescente, Elenice, abriu e o tenente entrou empurrando a dona da casa, que pediu calma ao policial. Não consta nos depoimentos as versões de Roger e Emerson sobre a abordagem.

Os quatro policiais contaram que Roger teria aplicado um golpe no menino: uma espécie de gravata, segurando o queixo, a boca e o nariz do rapaz com uma das mãos, empurrando a cabeça dele para trás, para imobilizá-lo.

Segundo depoimento, Rodrigues Júnior começou a se debater e os dois caíram em cima da cama do garoto, quebrando o seu estrado. O jovem teria batido fortemente a cabeça neste momento. Ottaviani algemou o rapaz e saiu do quarto para conversar com a mãe e Débora, irmã da vítima.

Depois de imobilizado, o jovem teria ficado no quarto com Roger, Emerson, Gonzaga, Delasta e Arcângelo. Gonzaga conta que o oficial perguntava pela arma, apertando o adolescente pela garganta. Pelos relatos dos quatro policiais, Emerson também teria golpeado o adolescente. O tenente destaca que não presenciou a agressão. Já Emerson sustentou que não entrou na residência, muito menos no quarto.

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Droga

Numa das prateleiras do guarda-roupa, o cabo Gérson Gonzaga disse que encontrou uma porção de maconha, que foi entregue ao oficial. Durante as buscas, Delasta, Gonzaga e Arcângelo teriam ouvido o tenente Roger Vittiver dizer: “Vou buscar o QRU”, sair sozinho e depois voltar. Eles relatam que viram o tenente passando um plug de fio no corpo do adolescente, provocando choques. O soldado Emerson também teria aplicado choques. Tanto Roger quanto Emerson negaram terem aplicado os choques e também destacaram que não viram o fio até o momento que o tenente teria apreendido o objeto.

Delasta, Gonzaga e Arcângelo contaram que o adolescente estava caído no chão, algemado com as mãos para trás, pálido e “estrebuchava”, como num ataque epiléptico. Roger teria dito que o adolescente estria fingindo, quando Delasta ressaltou que o adolescente precisava ser socorrido.

Houve uma discussão sobre em qual viatura o jovem seria socorrido, já que o tenente teria se recusado a levar o adolescente em seu veículo, uma Blazer. O oficial determinou que o garoto fosse socorrido na viatura Corsa. Os quatro policiais afirmaram que não relataram todos estes detalhes anteriormente por temer represálias e por seguir a hierarquia.