08 de julho de 2026
Turismo

Terra de sotaques

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 5 min

A São Paulo onde o clima engana e a vida é grana, é um caldeirão de modos, costumes, culturas e sotaques. Os italianos chegaram à cidade no início do século 20, chegando a representar, na época, dois terços de toda a sua população. Depois foi a vez de portugueses, japoneses, árabes e judeus, com a determinação de ganhar a vida e se estabelecer nessa terra onde semeando tudo dá.

Os italianos foram os responsáveis pela formação das primeiras vilas operárias, enquanto que os portugueses, árabes e judeus se dedicaram ao comércio. Os primeiros imigrantes judeus que chegaram à cidade se instalaram no bairro do Bom Retiro inovando em um novo ramo de atividade, o da “confecção”. Cheios da grana compraram e construíram mansões se deslocando para o Higienópolis, onde ainda hoje funcionam muitos açougues, lojas de comida “kosher” e até a sinagoga da Congregação Sefardi Paulista.

Hábeis comerciantes, os portugueses, com o lápis atrás da orelha e o papel de pão para as contas, abriram vendas de roupas e secos-e-molhados famosos, onde não faltava o famoso bacalhau. Já os japoneses se dedicaram, primeiro, à plantação de pêssego para só mais tarde se debandarem para as fazendas de café do Interior Paulista.

O centenário da imigração paulista está sendo comemorado este ano. Foi em 1908 que o navio Kasato-Maru desembarcou em Santos, marcando o princípio do que seria a fixação da maior comunidade nipônica do mundo fora do Japão.

Todos os bairros históricos de São Paulo – Freguesia do Ó, Brás, Mooca, Bixiga ... merecem ser visitados. Em especial o oriental, Liberdade, e o Bom Retiro, paraíso de compras, principalmente para as mulheres.

A maior parte do comércio do Bom Retiro ficou no início concentrada ao longo dos seis quarteirões da rua José Paulino, que até 1916 chamava-se rua dos Imigrantes. Mas outras vias do bairro descobriram, com o correr do tempo, que a vocação da região como um todo era virar um grande centro de negócios de roupas e tecidos.

O bairro da Liberdade é muito mais do que o palco dos sushis e dos sashimis. Andar por suas ruas, principalmente agora quando se comemora o centenário da imigração japonesa, é resgatar a história.

Os japoneses chegaram a São Paulo – uma terra que não tinha nada a princípio para vingar – por conta da “muralha” que a separava do mar, em 1908, atraídos pela promessa de dias melhores. Longe da terra do sol nascente, dos hábitos, dos costumes e da culinária típica, esse bravo povo se adaptou e deu lições de vida aos brasileiros

O livro “Dez Culturas à Mesa”, da Ordem de Malta e DBA – Dórea Books and Art –, conta a história da família Okubo, que, como tantos imigrantes japoneses, tomou um navio para o porto de Santos e, de lá, seguiram direto para uma fazenda na região de Bauru, onde cumpriu contrato de trabalho numa fazenda de café. Após alguns anos de economia, mudaram-se para a cidade de São Paulo.

“Havia barreiras a vencer, e não menos difíceis: a cultura e os costumes brasileiros eram distantes dos japoneses, a língua soava incompreensível, a comida parecida pouco convidativa...”

Os Okubo, assim como os demais imigrantes japoneses que eram obrigados ao cardápio imposto no cotidiano do trabalho, procuravam se consolar preparando em casa refeições com todas as características da culinária japonesa, a começar pelos condimentos. O molho de soja, por exemplo era indispensável.

Agricultores eméritos, os japoneses não apenas revolucionaram a mesa dos paulistas – que acabaram sucumbindo à culinária milenar cheia de rituais, produzindo as frutas e verduras nativas com qualidade muito superior - como também trouxeram novidades, que logo se aclimataram e caíram no gosto dos brasileiros. Exemplos clássicos são o caqui e a mexerica-poncã, entre as frutas, e o crisântemo, entre as flores.

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Bom Retiro

A região do Bom Retiro, que durante séculos foi inabitada e passou a sediar chácaras de retiro de fim de semana entre 1828 e 1872, tornou-se passagem obrigatória de ciclos migratórios. O bairro foi a primeira morada de muitos estrangeiros e ainda hoje tem a vocação de abrigar gente de países distintas.

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O Pátio e a história

Nunca é tarde para relembrar a história. Em 1554, um grupo de jesuítas inaugurou o Colégio de São Paulo, núcleo da atual cidade. O povoado foi crescendo e, em 1711, a vila passou a ser uma cidade e um importante entreposto comercial.

O progresso chegou com a expansão da cultura do café e a construção das estradas de ferro, que conectavam a cidade com o porto de Santos. Os imigrantes estrangeiros, que chegaram a partir do século 19, contribuíram para o desenvolvimento econômico e para o aumento da população.

Surgiram novos bairros com seus famosos casarões – avenida Paulista, entre outros –, onde se instalaram os barões do café e as indústrias, tocadas por imigrantes – Matarazzo, entre outras.

A partir do século 20 não se deteve mais seu crescimento, com São Paulo se tornando uma das principais capitais de negócios do mundo e o centro nervoso do parque produtivo do País.

Concentrando na Capital e Grande Região mais de 22 milhões de habitantes, São Paulo conta com dois aeroportos – Congonhas e Cumbica –, além do Campo de Marte – para pequenas aeronaves, terminais ferroviários – e a Estação da Luz conserva até hoje suas características arquitetônicas do tempo do império, uma ampla rede de transporte rodoviário e de táxis e acesso fácil ao porto de Santos e às principais rodovias que cortam o País.