10 de julho de 2026
Geral

Para PM, desestruturação das famílias e crises no País mudaram o tráfico

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

A exemplo da Polícia Civil, a Polícia Militar (PM) de Bauru também confirma que o tráfico de drogas alastrou-se como uma “epidemia” para as classes sociais mais abastadas. Para a corporação, a explicação para esse fato reside em uma combinação de fatores, que alia desde as perdas salariais e desestruturação familiar da classe média, geradas pelas inúmeras crises econômicas do País, até a democratização do acesso à Internet.

O major Nelson Garcia Filho, comandante operacional do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (BPM-I), é um dos que ressaltam tais motivos para explicar o envolvimento crescente, principalmente da classe média, no tráfico de drogas.

“O tráfico não respeita classe social. É de A a F, em todas elas há o tráfico. Mas por que a classe média entrou nessa roubada? É preciso analisar a parte econômica. Há no Brasil 60 mil milionários e 180 milhões de pessoas que não são milionários, o que gera enorme desigualdade social e achatamento violento da classe média. Mas o que isso tem a ver com o tráfico?”, questiona, para depois complementar:

“Aqueles pais da classe média que permaneciam o tempo todo cuidando da família tiveram de sair de casa para exercer uma segunda profissão, dedicando-se menos na educação de seus filhos. Aí a criança ou o jovem saem de casa e encontram um referencial prejudicial na rua. E esse pessoal, não estando em casa, gera desagregação familiar e os pais, de forma errônea, querem que a escola faça a educação do filho, esquecendo que quem tem de fazer são eles, cabendo à escola apenas complementar. Aí esse jovem da classe média começa a procurar um jeito de ganhar dinheiro. É quando vem algum traficante oferecendo isso.”

Não faltam provas disso. Somente nos últimos dois anos, a Polícia Militar registrou a participação de 375 adultos e 104 adolescentes envolvidos em ocorrências de tráfico de drogas. Garcia Filho sustenta que o envolvimento da classe média no tráfico iniciou-se há cerca de 15 anos, colaborando para mudar o perfil do negócio em Bauru e em todo o País.

“Hoje você encontra bocas onde ninguém fala que é um bolsão de pobreza. De forma geral, em cada zona da cidade os traficantes têm seus dois ou três pontos em que o pessoal vai encontrar”, afirma.

Mas, além da desestruturação familiar e do achatamento salarial, o oficial aponta outra forma relevante na disseminação do tráfico entre a classe média: o comércio eletrônico de entorpecentes, que ganhou força com a democratização do acesso à Internet. “O Orkut e as salas de bate-papo facilitaram e quem tem acesso a isso são as classes média e alta. E, como é um comércio, o traficante vai buscar o mercado dele. Antigamente, sabíamos que as bocas eram na periferia, com alguém tendo de ir lá buscar, mas hoje o traficante vai até o usuário, por exemplo, na faculdade, ou fornece pela Internet”, enfatiza Garcia Filho.

O major lembra que a prostituição também colaborou para a “explosão” do tráfico de drogas no País. “Isso porque acaba sendo mais rentável às prostitutas traficar do que fazer os programas sexuais. Para o traficante, é melhor porque ele tem uma forma mais fácil de escoar o produto. Há muito tempo, cerca de dez anos, as prostitutas nem gostavam de se relacionar com os traficantes, mas hoje percebe-se que elas se interessam pelo tráfico, que vira um complemento de renda”, destaca.

No entanto, o comandante da PM sustenta que o tráfico é comandado principalmente pelos presidiários. “O sujeito que está na cadeia continua monitorando o crime pelo celular. Hoje quem comanda o tráfico, de forma importante, são os presos nas cadeias, inclusive em Bauru. Mas tem traficante solto, que percebemos que são de menor importância”, finaliza.

____________________

Tráfico em zonas

Sem fazer menção aos bairros, o major Nelson Garcia Filho explicou que o tráfico de drogas em Bauru é dividido em zonas pelos traficantes. “Eles dividem em zonas, não por bairros, mas trabalham em determinadas áreas e fazem a movimentação do tráfico nesse pedaço. Não saberia dizer perfeitamente quantos traficantes e zonas, mas sabemos que há divisões”, destaca o comandante da PM.

Garcia Filho ressalta que, apesar de ter se alastrado, o tráfico também procura manter raízes na periferia. “O traficante procura sentar o pé dele ali porque a criança e o jovem são desprotegidos. Geralmente, a mãe vai trabalhar fora ou a criança não tem o pai e, assim, ela fica vulnerável à ação do traficante, que tenta começar a mostrar as vantagens ilusórias desse negócio”, destaca o oficial.

Ele completa: “Ela começa primeiro fazendo o serviço de avião, levando ou trazendo uma pedra ou outra. Depois, quando já começa a ter um retorno e vê que é bom ganhar R$ 100,00 em uma semana, começa a tentar dar pulos mais altos e crescer na carreira. É quando começam os embates com outros traficantes que já estão ali achando-se donos dos pedaços, gerando brigas entre quadrilhas para manter a tomada de pontos e os homicídios.”