09 de julho de 2026
Saúde

Silêncio, o efeito do coquetel contra a aids

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 9 min

Considerado uma das maiores autoridades no mundo no tratamento de doenças periodontais (que atingem os tecidos ao redor dos dentes), o cientista Mário Eduardo Algodoal Ferreira Alves, 66 anos, também estuda com obstinação o problema da aids.

Ele começou a se interessar pela doença em meados dos anos 80, época em que desenvolvia pesquisas envolvendo babuínos no hospital veterinário da Universidade de Illinois, na cidade norte-americana de Chicago, onde é professor desde a década de 70. “Naquele tempo, quando eu atendia a um paciente HIV positivo, dificilmente voltava a encontrá-lo com vida no mês seguinte”, recorda.

E pensar que hoje, graças aos avanços alcançados pela medicina, portadores da doença conseguem atingir uma sobrevida considerável. “O coquetel, sem dúvida alguma, foi a grande descoberta no combate à aids. Se, antes, um doente era capaz de sobreviver por seis meses, hoje esse período aumentou para mais de 20 anos”, salienta o pesquisador.

Isso não quer dizer que Algodoal considere a aids um problema já contornado. “Na verdade, hoje a coisa está muito silenciosa. O coquetel criou nas pessoas a falsa impressão de que a doença se encontra controlada e de que não há mais riscos dela ser transmitida”, pondera ele.

Bauruense nato, formado na primeira turma da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP), Algodoal costuma vir à cidade todos os anos para rever amigos e familiares. Na última semana, ele esteve no Jornal da Cidade, onde comentou a respeito do estágio em que se encontram as pesquisas referentes à aids no mundo.

Falou, ainda, sobre a quebra da patente dos medicamentos usados no combate à enfermidade e os riscos oferecidos à saúde pelas doenças periodontais. Acompanhe a entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - O senhor nasceu e fez seus estudos em Bauru. Como acabou se tornando professor em uma universidade nos Estados Unidos?

Mário Algodoal - Na verdade, comecei a fazer odontologia em Araraquara, pois quando entrei na faculdade, em 1962, o curso ainda não havia sido implementado em Bauru (a FOB entrou em funcionamento três meses após ele ingressar no ensino superior). No ano seguinte, consegui me transferir para cá, e fiz parte da primeira turma de formandos da faculdade. Logo depois de formado, montei um consultório na quadra 8 da rua Cussy Júnior, no Centro, e passei a clinicar. Fiz isso por sete anos. Então, comecei a me deparar com problemas no dia-a-dia que eu não era capaz de resolver. Percebi que só conhecia o ABC da odontologia e resolvi partir em busca de novos desafios.

JC - Foi assim que o senhor foi parar em Chicago?

Algodoal – Antes, concluí meus projetos de mestrado e doutorado em periodontia no Brasil. Era uma área relativamente nova da odontologia - os primeiros trabalhos relacionados aos assunto datam dos anos 50 -, e me interessei bastante, até porque, quando terminei minha pós-graduação, em 1973, a ciência mundial estava ingressando na ‘Era da Biologia Molecular’. Resolvi, então, ir para Chicago e fazer pós-doutorado na Universidade de Illinois, para me aprofundar nesse tema.

JC - O senhor falava inglês fluentemente naquela época?

Algodoal - Nada (risos). Aprendi lá, no dia-a-dia.

JC - Como foi sua estadia em Chicago?

Algodoal - Nos dois anos em que estive lá, ajudei a desenvolver uma projeto de pesquisa financiado por uma empresa chamada X-Tronics, que costumava investir em projetos de alto risco nos Estados Unidos.

JC - E em que consistia esse projeto de alto risco?

Algodoal - A empresa investiu U$ 500 mil na tentativa de descobrir um sistema capaz de oferecer diagnósticos de doenças bucais, semelhante aos testes de gravidez.

JC - Como assim?

Algodoal - Basicamente, tratava-se de uma fita de papel que, depois de ser colocada na boca, era mergulhada em um reagente e mudava de cor. Se ficasse vermelha, isso indicava que o paciente tinha alguma doença; se ficasse azul, era sinal de que a pessoa estava sadia. Sei que, no final, a X-Tronics vendeu o projeto por U$ 3 milhões para uma grande fabricante de cremes dentais, que, por sua vez, acabou engavetando a idéia, pois já vinha desenvolvendo um sistema semelhante em seus laboratórios.

JC - Isso deve ter sido decepcionante, não?

Algodoal - Na verdade não. Em ciência, é comum que pesquisas semelhantes sejam desenvolvidas em diferentes frentes. Além disso, no final acabou-se descobrindo que era mais fácil e viável, em termos econômicos, deixar o diagnóstico das doenças bucais a cargo dos especialista da área. O importante daquele trabalho não foi seu resultado final, mas sim o conhecimento que conseguimos acumular no decorrer da pesquisa.

JC - Por exemplo...

Algodoal - Descobrimos, por exemplo, que as doenças periodontais são mais complexas do que se imaginava. Elas envolvem pelo menos 150 diferentes tipos de bactérias, por isso são praticamente impossíveis de serem curadas. O grande problema é que as pessoas ignoram os riscos oferecidos ao organismo por essas enfermidades. Não fazem idéia de que um sangramento na gengiva não tratado pode se converter em plataforma para outras doenças graves que afetam o organismo.

JC - Que tipo de doença?

Algodoal - Doenças cardíacas, por exemplo. Hoje há estudos que relacionam os problemas periodontais a um tipo de inflamação que altera as paredes dos vasos do coração e que pode levar o paciente à morte. Esse é apenas um dos inúmeros casos que poderiam ser citados. O fato é que pessoas com bons dentes têm uma saúde melhor e vivem mais.

JC - Mas voltando à sua carreira, como senhor começou a pesquisar a aids?

Algodoal - No final dos anos 70, acabei sendo contratado pela universidade para lecionar no departamento de periodontia. No começo da década de 80, comecei a realizar estudos sobre cicatrização em implantes dentários feitos em babuínos.

JC - Como o senhor fazia para mexer na boca de animais como aqueles? Eles parecem ser meio bravos...

Algodoal - Eles eram sedados. A gente só lidava com eles quando eles estavam dormindo. Para você ter uma idéia, o babuíno é um animal tão feroz que o leopardo tem medo dele. O interessante daquela pesquisa é conseguimos estabelecer um protocolo para tratamento dentário em primatas no hospital veterinário da universidade e que acabou sendo adotado em todos os Estados Unidos, em diferentes espécies animais.

JC - E as pesquisas sobre a aids?

Algodoal - A primeira vez que tive contato com a doença foi em 1985, quando a história da aids ainda estava no começo. Naquela época, enfermidades bucais consideradas raras começaram a se tornar freqüentes, pois a boca é uma região do corpo muito sensível a alterações no sistema imunológico.

JC - E o senhor começou a estudar essas doenças?

Algodoal - Ninguém (inclusive nós, estudiosos) sabia o que fazer para combater aquele problema. Se eu atendesse um determinado paciente, dificilmente voltava a encontrá-lo com vida no mês seguinte. A taxa de mortalidade era muito grande entre os portadores da doença. Lembro do primeiro paciente HIV positivo atendido na universidade: o médico que o tratou usava uma espécie de traje ‘espacial’ (com máscara e luvas) e a sala estava toda forrada com plástico.

JC - De lá para cá, qual foi a grande conquista alcançada pela ciência no combate à aids?

Algodoal - Sem dúvida alguma, foi a introdução do coquetel (composto de medicamentos que inibe a ação do vírus no organismo) no tratamento dos pacientes. Isso aumentou a sobrevida dos portadores da doença de seis meses para 20 anos. Eu, por exemplo, tive a oportunidade de ver uma criança nascer com o vírus e completar, recentemente, 27 anos de idade.

JC - Podemos dizer, então, que hoje a aids já não representa um problema tão grande como no passado?

Algodoal - Hoje a coisa está muito quieta em torno da questão. O coquetel criou nas pessoas a falsa impressão de que a aids é um problema superado e de que não há mais riscos dela ser transmitida. Isso, na verdade, é um mito: o fato de um indivíduo estar com a doença controlada em seu organismo não quer dizer que ele não possa transmitir o vírus. Além disso, muita gente se esquece de que o coquetel traz efeitos colaterais sérios, como distrofia muscular, doenças renais e hepáticas.

JC - Qual a sua opinião sobre as políticas adotadas por países, como Índia e Brasil, no combate à doença?

Algodoal - A quebra das patentes dos medicamentos que compõem o coquetel (ocorrida no final dos anos 90, quando governos de países pobres e em desenvolvimento deixaram de pagar royalties às indústrias do setor farmacêutico e passaram a produzir por conta própria os remédios usados no combate à aids) foi positiva, por um lado, pois facilitou o acesso das pessoas ao tratamento. Eram vidas humanas que estavam em jogo. Por outro lado, se analisarmos com calma, veremos que a solução encontrada foi imediatista, pois as pesquisas que levam ao desenvolvimento de remédios demoram décadas para serem concluídas e costumam consumir milhões de dólares em recursos. Se os laboratórios deixarem de vislumbrar uma maneira de ganhar dinheiro com esses medicamentos, eles deixarão de investir em pesquisas nessa área e todos serão prejudicados.

JC - Atualmente, no que se refere à aids, o que mais chama atenção?

Algodoal - Hoje, as mulheres são o principal grupo infectado pelo HIV. Nos Estados Unidos, por exemplo, a maior incidência se dá entre as mulheres negras. No passado era diferente, pois a aids atingia principalmente os homens da classe alta, em geral, os homossexuais, que são um grupo bastante organizado e têm uma grande penetração nas altas esferas de poder do país. Isso, aliás, ajudou a gerar uma grande mobilização em torno da questão e serviu para atrair recursos para o combate à doença. Uma outra novidade é o fato de que, por conta do coquetel, os portadores de HIV estão envelhecendo e estão ficando sujeitos aos problemas inerentes à idade. Pelo que pudemos perceber, até agora, doenças próprias da velhice estão sendo potencializados pela aids, isto é, estão surgindo mais cedo do que deveriam.

JC - Qual seria a razão para isso?

Algodoal - Por si só, a aids é uma doença muito desgastante; ela consome muita energia do paciente e essa situação acaba sendo agravada pelos efeitos colaterais causados pelo uso freqüente do coquetel.