07 de julho de 2026
Política

Lula e Serra testam poderio em SP

Por Fábio Zambeli | Da APJ especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Mesmo distantes da maioria dos palanques do interior paulista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador José Serra serão cabos eleitorais de peso para seus aliados na disputa pelas 645 prefeituras no Estado, em 5 outubro.

PT e PSDB decidiram levar à vitrine da campanha as obras e indicadores dos governos federal e estadual, o que produzirá no pleito municipal uma prévia da disputa pelo Palácio dos Bandeirantes e pelo Planalto em 2010.

Enquanto petistas apostam nos primeiros projetos do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), que injetarão R$ 1 bilhão somente neste ano no Estado, o pacote denominado Pró-Vicinais, com um montante de recursos de R$ 556 milhões e alcance em estradas de 235 municípios, protagoniza o portifólio tucano para angariar votos e a simpatia do eleitor.

O desenho da estratégia de campanha dos partidos que polarizam as atenções na cena política nacional revela que ambos colocarão à prova, nas urnas de São Paulo, a popularidade de seus expoentes, hoje no comando do Executivo do Estado e da União.

“Os feitos do governo Lula podem contribuir, e muito, no diálogo com a sociedade. Eles vão quebrar resistências”, afirma à Associação Paulista de Jornais (APJ) o presidente estadual do PT, Edinho Silva, prefeito de Araraquara.

“Usar as obras, as intervenções do Estado nos municípios onde essas intervenções foram feitas, é absolutamente normal”, diz à APJ o presidente estadual do PSDB, Antonio Carlos Mendes Thame.

Os dois caciques, todavia, tentam descaracterizar o uso da máquina administrativa na campanha, afastando o presidente e o governador do chamado “corpo-a-corpo”, a fim de driblar os questionamentos legais da Procuradoria Regional Eleitoral.

“Penso que a prioridade do presidente Lula é governar. Não dá para esperar do presidente que ele tenha uma agenda farta para se empenhar nas eleições municipais”, prevê Edinho.

“Isso (uso da máquina), eu tenho absoluta convicção de que o governador não vai admitir. É um dos pressupostos éticos que balizam seu comportamento. Agora, que candidato nosso a prefeito faça a divulgação de uma obra que foi feita por uma administração do PSDB, é um direito dele”, analisa Thame.

Alianças

Outra trincheira em que PT e PSDB digladiarão é na construção de alianças que reproduzam as coalizões pró-Lula e pró-Serra.

O assédio petista recairá fundamentalmente sobre o PMDB, com quem o partido planeja pavimentar, nas palavras de Edinho, uma “alternativa estadual para 2010”. Mas a volúpia do PT não poupará outras siglas que compõem o bloco governista em âmbito federal e que, no cenário bandeirante, estão alinhadas ao tucanato.

“O PT tem que disputar os partidos da base de coalizão. Mesmo os partidos da base (de Lula) sendo aliados do PSDB no Estado, temos que chamar para o diálogo”, afirma o presidente do diretório paulista.

Para a Executiva Estadual tucana, embora os esforços se concentrem na manutenção do pacto com o DEM, a idéia é dar autonomia aos interesses locais em detrimento das coligações “verticalizadas”.

“Nas eleições municipais, há o componente provinciano e o componente pessoal. É o que a gente chama de fulanização da política. Cria muitas vezes uma lógica própria, personalizada, em função das amizades, da simpatia, do trabalho pessoal em cada cidade”, defende Mendes Thame.

Geografia do voto

Quando o assunto é a tática eleitoral e a expectativa de expansão, as metas das duas legendas são tratadas com discrição antes do início formal da campanha.

No controle de 57 prefeituras, o PT não arrisca projeções numéricas de crescimento. Edinho Silva classifica como prioridade reduzir a rejeição da “classe média” ao partido. “Se conseguirmos melhorar nossa capacidade de interlocução com esse segmento da sociedade, teremos um bom resultado eleitoral.”

Já o PSDB, que administra 220 cidades, faz cálculos modestos, baseados na progressão vegetativa da sua presença no Estado. “Se levarmos em conta que hoje estamos organizados em 643 cidades, podemos esperar um aumento de 10% nas nossas bancadas de vereadores e no número de prefeitos”, avalia Thame.

Além da importância estratégica que o Estado representa no aspecto econômico, os 28.553.481 eleitores paulistas representam uma fatia de 22% do universo de votantes do País, o que dá ao pleito estadual status “plebiscitário”, conforme avalia o cientista político, David Fleischer, consultado pela APJ.

“Tendo em vista as seqüências 2000-2002 e 2004-2006, os partidos que aumentam sua participação em nível municipal, prefeitos e vereadores, tendem melhorar seu desempenho nas eleições gerais dois anos depois”, analisa Fleischer, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).