08 de julho de 2026
Polícia

Exame do 11 de Setembro pode ser usado em Bauru

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

O método utilizado para identificar as vítimas de 11 de Setembro, nos Estados Unidos, pode ser aplicado para resolver o caso das crianças trocadas em Bauru. Se for mesmo usado, ajudará a esclarecer o paradeiro do filho de um casal de Reginópolis.

Há quase seis anos, o bebê nasceu na Maternidade Santa Isabel. Horas depois do parto, pai e mãe foram informados da morte da criança. Ela seria do sexo masculino, mas sepultaram uma menina. O inquérito corre no 3.º Distrito Policial (DP), que investiga se o filho de Vera Lúcia Dutra e Reginaldo Aparecido de Souza, nascido em 2001, morreu ou está vivo. E, se está vivo, onde foi parar.

Em fevereiro do ano passado, foram exumados os corpos de três bebês que morreram no mesmo dia que o filho do casal. Mas em virtude do tempo transcorrido, o material orgânico recolhido foi insuficiente para a realização do exame convencional de DNA. Diante da dificuldade, a delegacia pesquisou a possibilidade de realizar outro tipo de exame nos restos mortais.

“O DNA convencional é quando o material é farto. Mas nesse caso, o tempo passou. Então, a última análise é uma técnica chamada mitocondrial”, explica o titular do 3º DP, Silberto Sevilha Martins. Ela poderá ser utilizada junto com a metodologia desenvolvida pelo FBI nos Estados Unidos para identificar o corpo das vítimas de 11 de Setembro.

Análise

A informação foi confirmada pelo biólogo e geneticista Esiquiel de Miranda, que recebeu o material orgânico das crianças mortas vindo do Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo. “Não que o IC não tenha capacidade técnica. Não tem é equipamento técnico para fazer o exame. O promotor de Justiça pediu que o geneticista apontasse um laboratório”, acrescenta Martins.

Miranda trabalha conveniado com um laboratório de Campinas. “Não podemos adiantar nada ainda. Eu examinei visualmente o material. Os ossos vão passar por uma porção de análises. A gente não sabe se tem material para fazer o exame”, comenta o geneticista e biólogo.

Em caso positivo, serão aplicadas as técnicas mitocondrial e outra nova, denominada minilocus de microsatélite - utilizada pelos americanos, após a queda do World Trade Center. “Estou esperançoso. Não vejo a hora que acabe tudo isso. É difícil para a gente porque não sabemos o que aconteceu e onde ele (bebê) está”, conclui Reginaldo, ao falar do próprio filho.

____________________

Custo

Antes de realizar teste de DNA em todas as mães e seus respectivos filhos nascidos nos mesmos local e data que o do casal de Reginópolis, a Polícia Civil pretende descartar a possibilidade de que uma das três crianças mortas no mesmo dia seja o bebê procurado. Mas para tanto, esbarra na dificuldade orçamentária. Quem arcará com os custos do exame eventualmente realizado num laboratório particular?

“Em princípio, o Estado porque tudo indica que houve uma falha. Ela não pode ser imputada à vítima. Há uma investigação de um crime. Se há uma investigação, quem investiga o crime é o Estado. Se o Estado está investigando o crime, todos os recursos que forem necessários para essa investigação, são recursos que o Estado deve prover”, diz o promotor João Henrique Ferreira.

O inquérito que está sendo conduzido pelo 3º Distrito Policial também é de responsabilidade dele, que pediu as provas. “O MP é receptáculo das provas produzidas pela polícia. O delegado tem de resolver esse problema”, explica, ao discutir qual órgão do governo do Estado teria de liberar a verba necessária.

“Não sei quem teria de pagar isso. De qualquer maneira, se realizado esse exame, exaure todas as possibilidades”, comenta o titular do 3º DP, Silberto Sevilha Martins. Pelo que a reportagem apurou, é provável que a dúvida seja esclarecida apenas na Justiça, depois que o valor for conhecido.

“Se tiver material, aí a gente vai verificar quanto fica isso aí”, conclui o biólogo e geneticista, Esiquiel de Miranda.

____________________

Cadeia de Custódia

O trânsito do material recolhido na exumação dos bebês respeita a chamada cadeia de custódia. É ela quem atesta a origem do material investigado. “Não pode pairar dúvida. Se trocou um osso, por exemplo, quebrou a cadeia de custódia. Nós a respeitamos. Tem que documentar todo esse material. É muito importante no caso do DNA. O perito sabe de quem coletou e como coletou. Se eventualmente tiver que passar para outra pessoa, ele tem que documentar”, conclui o delegado do 3º DP, Silberto Sevilha Martins.