08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Pastor e mestre


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Na semana que passou, toda comunidade bauruense foi sacudida com o falecimento de dom Cândido Padin, bispo emérito da Igreja Católica e que pertencia à Ordem de São Bento ou beneditina, como muitos a denominam. Estava radicado em São Paulo, no Mosteiro de São Bento, desde a sua aposentadoria, onde escrevia e por vezes se ausentava em viagens e na realização de palestras, quando convidado.

Nestas singelas linhas, ouso falar e tecer alguns comentários à sua memória, desse sancarlense que uma vez aportado em nossa cidade e região diocesana teve em vida a sua maior e melhor fase de produção humana, tanto na qualidade de pastor das ovelhas do rebanho de Cristo, assim como homem de seu tempo.

Costumo dizer às pessoas que o Estado de São Paulo está marcado por uma linha divisória através do rio Tietê, que o divide ao meio entre terras férteis no seu lado norte e fracas no lado sul. Talvez isso explique, que dada a natureza do solo sempre o lado norte foi mais próspero que o do sul. Tal consideração tem a ver principalmente para explicar que historicamente a pessoa humana não é muito dada à partilha, notadamente quando é oriunda de centros altamente desenvolvidos e cheios de riqueza.

Na vida de dom Cândido aconteceu o inverso. A sua identificação e predileção deu-se com os despossuídos. Talvez a explicação mais próxima esteja ligada pelo fato de ter galgado a vida sacerdotal já como “homem maduro”. Primeiramente abraçou a causa do direito, formando-se na Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, onde conheceu e conviveu com figuras proeminentes de sua época e da vida brasileira. Fez da justiça a sua causa maior e entendeu que deveria consagrá-la na vida sacerdotal. Entendeu, ainda o sentido de sua vida como discípulo do Grande Mestre no Evangelho de Mateus, cap. 5, vers. 7, que diz: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”.

Durante todo o tempo que foi bispo da Diocese de Bauru deu a esta não somente a sua visão, mas o fio de conduta em sua linha de ação pastoral entre os presbíteros e leigos, aos quais preconizava em assembléias diocesanas, reuniões comuns e ações litúrgicas os compromissos de promover e desenvolver em todos os níveis de ação da vida a dignidade da pessoa humana. Soube de maneira muito própria fazer a leitura de homem do seu tempo, bebendo os ensinamentos da Igreja, principalmente dos pontificados de Leão XIII, João XXIII e Paulo VI, onde muito colaborou na interpretação dos “novos ares” da Igreja Católica num mundo secular e que bateram às portas e janelas do Vaticano, mas que ganharam contornos e novas perspectivas para o continente latino-americano, destacando as conferências de Medellin, Puebla e Santo Domingo, onde participou de forma destacada.

Sobre a sua pessoa, muitas vezes ouvi comentários do tipo “é um bispo comunista” ou “é um bispo que não pára em Bauru”. Sobre isso, como testemunho pessoal e público, devo dizer que d. Cândido jamais referiu-se a sistemas de vida como forma de organização da Igreja, tanto da parte do clero como dos leigos, mas sempre incentivou estes últimos à prática do exercício político, através do diálogo, a dialética e o estudo para o exercício pleno da democracia.

Participou de forma efusiva do Movimento “Diretas-Já”, assim como prestando contribuição na salvaguarda dos direitos humanos mormente nos momentos difíceis de perseguições políticas de que o nosso país foi alvo, como também em outros países. Nunca foi omisso ou ausente em se pronunciar em todas as questões da vida. Certa ocasião perguntei-lhe como se identificava politicamente, um bispo progressista ou conservador, ao que me respondeu: “Nem uma coisa, nem outra”, evidenciando que tais adjetivos não contribuíam para edificar e sim para dividir. Sempre pautou por uma vida simples e modesta, tanto no aspecto pessoal, como na forma de expressão e convivência, uma síntese entre o beneditino e o franciscano.

Contribuiu sobremaneira com os movimentos tanto dentro como fora da Igreja, com destaque naqueles onde o seu carisma se propugnava por ações de transformações e mudanças da sociedade. Tinha predileção especial aos mais pobres com os quais conviveu nas periferias, quando apreciava com muita alegria quando estes o serviam de um cafezinho, um pedaço de bolo ou guloseima qualquer, sempre muito solícito para com todos. Gostava muito de confraternizar-se com o clero e leigos. Sempre dizia que a Igreja tinha a opção preferencial pelos pobres, mas que entretanto esta questão não era excludente, pois foi também a opção de Jesus.

Numa palavra: dom Cândido foi um profeta de nosso tempo em anunciar a mensagem da esperança: que temos um Deus que caminha conosco, mas também em sempre estar atento a todo pecado, denunciando tudo aquilo que fere e avilta a dignidade do ser humano em todas as formas de vida. Bauru deve e precisa homenagear a figura ímpar de dom Cândido que conosco dividiu a sua vida e o seu legado por um mundo melhor.

Antonio Carlos Pinto de Arruda - leigo cristão - RG 3.545.432