De 10 anos para cá, uma nova safra de sacerdotes tem atraído a atenção para a Igreja Católica no Brasil. Se antes os padres eram vistos como pais, que aconselhavam, mas tinham aquele ar de austeridade, de agora a imagem do clero vem mudando. Depois dos padres cantores, ligados à Renovação Carismática Católica, como Jonas Abib, Marcelo Rossi, padre Zeca, chegou a vez de uma nova geração que, sem se valer dos talentos musicais, consegue atrair fiéis por ter perfil mais moderado, sem ser conservador nem abusar da modernidade. Além do padre Beto, o recém-ordenado Cristiano Guilherme Borro Barbosa representa essa nova geração em Bauru.
Formado em psicologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, ele deixou de lado o divã para se dedicar à vocação. “Já tinha esse desejo de ser padre antes da faculdade. Quando vim estudar, deixei a vocação um pouco de lado para me dedicar ao movimento estudantil, mas logo que me formei retomei o que queria e fui estudar para ser sacerdote”, conta ele, que é de Adamantina.
Aos 31 anos, o padre Cristiano não se vê como um novo ídolo, muito menos como um “chamariz” para a juventude só pelo fato de ser jovem. O que mais ele destaca como possível ação transformadora da nova safra sacerdotal é o fato dos jovens padres não abandonarem totalmente o mundo exterior. “Acho que é possível conciliar a fé e a vida. Há muitos padres hoje em dia que freqüentam academia, dão valor a cuidar do corpo, da saúde, mas andam de clégima (colarinho utilizado pelos sacerdotes)”, comenta.
Essa aparente dualidade entre as coisas do mundo e a fé não interfere no trabalho, segundo ele. Pelo contrário, Cristiano lembra que uma geração anterior à sua se desprendeu completamente dos sinais que representam a Igreja, algo que não acontece na atual geração. “Hoje você vai ver um retorno a muitas práticas que são antigas, como o uso do clégima, ao uso de certos sinais, a importância da pessoa do padre e as mudanças que ocorrem nele quando é ordenado”, frisa.
Apesar de enxergar várias mudanças na Igreja, como essa nova postura dos sacerdotes em saber conciliar da fé e mundo, o padre Cristiano ressalta que ainda falta para a Igreja Católica, como um todo, conciliar a fé e a vida na comunidade. Para ele, a Igreja precisa mudar a postura, indo até o povo, e não o contrário, como sempre ocorreu.
No entanto, lembra ele, as pessoas precisam lembrar que a Igreja não é só a figura do padre, mas todos que participam e vivem a Igreja diariamente. “Não adianta se dividir e ser uma coisa na fé e outra no mundo. Posso citar Ghandi neste caso: o dia que os cristãos fizerem o que pregam, o mundo será bem melhor”, salienta.
Santa Teresinha
O padre Cristiano está na Paróquia Santa Teresinha, em Bauru, substituindo o “titular”, que está de licença médica. Mas engana-se quem pensa que a recepção foi fria. Apesar do susto inicial de algumas pessoas, ele foi bem recebido pela comunidade, mesmo não sendo reconhecido de pronto. “Às vezes as pessoas vêm à paróquia e me perguntam pelo padre, até que alguém passa e fala: ‘ o padre é ele!’”, conta.
Outra curiosidade é o fato dele não acreditar que possa atrair a juventude para a Igreja pelo simples fato de ser jovem, mas por tentar entender e levar para essa juventude o que ela espera. “Nós podemos falar dos assuntos que atraem os jovens, como a beleza, por exemplo, sem deixar de lado o Evangelho. Posso muito bem usar um texto bíblico para mostrar aos jovens como eles são, como eles agem e como poderiam agir. É isso que atrai a juventude, não o fato de eu ser novo”, enfatiza.