09 de julho de 2026
Articulistas

Cães, gatos & cia


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Foi em meados da década de 50, pleno século 20, ainda no último milênio quando ouvi pela primeira vez a expressão “quem não tem cão caça com gato”. Garoto, eu tive dificuldade para entender o significado do dito popular. Precisei recorrer a meu pai, professor primário, que me esclareceu ao chegar a nossa casa. Fiel, amigo do homem, treinado para a função, era o preferido. Quem não o tivesse que ficasse, em desvantagem, com o gato. A predileção pelo canídeo foi facilmente compreendida até porque, em casa, tínhamos apenas cães que não deixavam entrar no quintal os gatos da vizinhança. De quebra divertíamos-nos muito quando, aventurando-se em nosso terreiro, galinhas de vôos curtos eram abocanhadas, ainda no ar, pelo Sheik, o nosso cão policial de grande porte. Pelo menos, era como o enxergavam as crianças de nossa rua.

Dias depois, ouvindo pelo rádio a novela Jerônimo, interroguei meu avô paterno, carpinteiro, pouco letrado, mas bastante sábio com a dúvida que me afligia. Porque, na falta do cão, era o gato o animal escolhido para a caçada? Era a idade dos por quês? Meu avô, pacientemente, explicou-me que o pequeno felino também era um bom caçador. Apenas tinha predileção por caças menores. Dei-me por satisfeito. Sentia-me capaz de esclarecer a molecada, com quem pelejava nas ruas sem calçamento.

Ainda mastigava a resposta quando fui surpreendido por meu avô. Entre uma e outra baforada do seu cigarro Fulgor, que mantinha entre os dedos de sua mão direita, amarelados pela nicotina, fez-me a pergunta que imaginei poder responder com facilidade:

E se você tiver o cão e o gato, qual escolhe para caçar? É claro que o cão. Se eu tenho o cão para que o gato? E se for para pegar um rato? Naquele dia aprendi, didaticamente, que tudo na vida é relativo e que, sem clareza do objetivo a ser perseguido, todos podem, pela obviedade aparente, fazer a escolha errada.

Na política, muitas vezes vivemos situações assemelhadas. Ora temos o cão, ora temos o gato. Dependendo da conjuntura, ou da caça, qualquer um pode ser suficiente. Por vezes, mais raramente, temos o cão e o gato e sabemos aquilo que devemos caçar. Nestas ocasiões, é injustificável a escolha do animal errado.

O autor, Milton Flávio, é médico, professor da Unesp-Botucatu,ex-deputado estadual pelo PSDB-SP