Uma tragédia pode nos levar a uma reflexão profunda sobre o sentido da vida. Principalmente, quando acidentes envolvem pessoas com histórias diferentes e que não tenham nenhum envolvimento direto umas com as outras. Imagine cinco pessoas atravessando uma rústica ponte sobre um grande abismo. Apesar de se conhecerem e de estarem atravessando a ponte no mesmo momento, possuem motivos diversos para estarem ali. Não planejaram atravessar a ponte juntas, mas justamente nessa travessia, a ponte se rompe e todas morrem.
Diante de um triste acontecimento como esse, o ser humano possui a tendência de buscar um motivo, uma justificativa, uma explicação. Quem planejou o trágico fato? Quem fez com que estas cinco pessoas estivessem naquele exato momento sobre a ponte? Seria o Destino, a vontade de Deus ou simplesmente uma coincidência? O mais interessante é que se investigarmos a vida de cada uma das cinco pessoas de forma retroativa para descobrirmos o motivo de estarem ali, naquele exato momento, encontraremos algo mais importante do que a razão de suas mortes. Descobriremos que a ponte não é somente a travessia da vida para a morte, mas que também na relação das pessoas há sempre pontes que podem ser construídas ou rompidas.
O filme da diretora Mary McCuckian “A Ponte de San Luis Rey” possui diferentes níveis de apreciação: a atuação de um grande elenco, o clima histórico e estético belissimamente construído e, por fim, o nível filosófico. Neste último, nos questionamos sim sobre o sentido da morte e principalmente da morte chamada acidental. Porém, ao mesmo tempo, existe um questionamento mais sutil e que ocupa praticamente todos os momentos da obra cinematográfica: o relacionamento humano entre seus personagens e como estes relacionamentos são construídos de acordo com o caráter de cada um, mas simultaneamente como cada relacionamento transforma o caráter de todos.
Nós poderíamos dizer que, a princípio, o ser humano se desenvolve em uma sociedade através de um processo de adaptação. Desde pequeno a criança se adapta através de uma aprendizagem informal, a viver em seu meio social e a conviver com seus semelhantes. Este processo inicial de adaptação não significa simplesmente a aprendizagem de regras e valores, mas também a formação e, mais tarde, a transformação de seu próprio caráter. Assim, a criança não somente aprende quais são as “pontes” existentes para o relacionamento entre as pessoas de sua sociedade, mas também como construir outras novas.
Mas algo trágico pode, muitas vezes, acontecer: a criança pode desenvolver um caráter que constrói pontes frágeis e fáceis de serem rompidas, como também um caráter incapaz de construir pontes até consigo mesma. Concretamente, podemos, a princípio, distinguir duas formas de adaptação, através das quais pontes são construídas: uma adaptação estática e uma adaptação dinâmica. A adaptação estática é aquela que não modifica o caráter da pessoa humana. Por exemplo, o chinês que se muda para o Brasil e é obrigado a deixar de comer com palitinhos não sofrerá uma modificação em seu caráter. Assim, o chinês poderá se adaptar à sociedade brasileira se tornando um corintiano, falando o português e comendo com talheres.
Estas são pontes que farão com que o chinês possa se relacionar com os brasileiros e manter com estes uma certa convivência. Dependendo da maneira como o processo se desenvolverá, esta adaptação não irá modificar sua personalidade. Por sua vez, a adaptação dinâmica é aquela que causa modificações no caráter do ser humano. Por exemplo, uma criança que possui um pai extremamente severo poderá, para se adaptar à sua família, desenvolver um profundo medo diante da presença paterna. Este medo poderá gerar mais tarde uma personalidade fraca e cheia de receios em relação a outras pessoas ou uma personalidade que possui pavor à submissão ou à subordinação.
Se desejamos construir uma sociedade saudável é necessário refletir sobre as formas de adaptação que modificam profundamente o caráter das pessoas. Parece-me urgente, por exemplo, a reflexão das formas de adaptação que fazem com que surjam um caráter corrupto e complacente com atitudes que ferem o ser humano ou banalizam as instituições gerando uma cultura de sonegação de impostos e mau aproveitamento do que é público.
Ao mesmo tempo temos que refletir sobre as formas de adaptação que geram um caráter carente que sofre com a falta de um caloroso relacionamento humano. Em outras palavras, se faz necessário refletir simultaneamente sobre o amor e a honestidade. Estas duas pontes entre as pessoas parecem ser, hoje em dia, muito procuradas, mas poucos parecem refletir que para construí-las é necessário um caráter que seja capaz de ser justo, de saber dizer não, assumir seus próprios erros e, ao mesmo tempo, aceitar da liberdade alheia.
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