Carros buzinando, multidões de gente andando a passos apressados, prédios e casas a perder de vista. É com esse tipo de paisagem que a maioria dos cerca de 360 mil moradores de Bauru costuma conviver no dia-a-dia. Muitas dessas pessoas nem fazem idéia, mas a poucos quilômetros da “Cidade Sem Limites” enconde-se um cenário totalmente oposto ao caos urbano.
Duas fazendas mantidas pela empresa Duratex nos municípios de Agudos e Lençóis Paulista abrigam verdadeiros tesouros naturais. Nos locais, imensos trechos preservados de cerrado e mata atlântica serpenteiam em meio a grandes plantações de pinus e eucalipto.
Atualmente, as reservas particulares da empresa se converteram numa espécie de abrigo para o que restou de fauna nativa na região. Animais que integram as listas Nacional e Estadual de Espécies Brasileiras Ameaçadas de Extinção - como a suçuarana (ou onça parda), o urubu-rei, o jacaré-de-papo amarelo e o tamanduá-bandeira - podem ser encontrados com relativa facilidade nas duas áreas.
A lista de espécies vegetais raros identificados nas reservas é também significativa. Pesquisadores que estiveram nos locais, ao longo das últimas décadas, tiveram a oportunidade de se deparar com perobas-rosas, cafés-de-bugres, embaúbas, jacarandás-paulistas, jequitibás, cedros e cabreúvas.
“Alguns estudiosos chegam a ficar emocionados com aquilo que vêem no interior das matas”, diz o engenheiro florestal e coordenador da área de meio ambiente da Duratex, José Luiz da Silva Maia. Xaxins (samambaia arborescente cujo caule costumava, antigamente, ser usado como vaso pelas donas de casa) e palmeiras jussaras (de onde é extraído um tipo de palmito bastante consumido), espécies que atualmente se encontram praticamente à beira da extinção, são facilmente avistáveis na Mata da Copaíba, em Agudos.
Com aproximadamente 20 hectares de extensão, a área de cerrado com ocorrências de mata atlântica vem sendo utilizada pela Duratex em seus projetos de educação ambiental. A reserva natural conta com um espaço denominado Área de Vivência Ambiental Piatan (Avap), onde os visitantes têm a oportunidade de conhecer de perto os projetos de sustentabilidade desenvolvidos pela empresa.
Na Avap, as pessoas ainda têm a chance de aprender o modo de fabricação dos produtos comercializados pela Duratex. A empresa costuma autorizar apenas visitas organizadas por escolas ou clubes de serviços, sempre com foco na educação ambiental. Turistas não são admitidos no local. “A estrutura de que dispomos não comportaria um número elevado de visitantes na área”, explica Maia.
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Mato e poeira
Para aqueles que são extremamente apegados ao conforto da cidade, uma visita às reservas naturais mantidas pela Duratex não seria, à primeira vista, uma experiência das mais agradáveis. Poeira, mato e plantas espinhosas não faltam nos dois lugares. Na última semana, a reportagem do Jornal da Cidade esteve na Mata da Copaíba, em Agudos, e na Reserva Natural Olavo Egydio Setúbal, em Lençóis Paulista.
Naquele dia, a equipe teve uma sorte das grandes: como havia chovido bastante na noite anterior à visita, os pernilongos e borrachudos decidiram não dar o ar de sua graça, poupando nossa pele dos ataques ferozes. Nossa primeira parada ocorreu na Fazenda Monte Alegre, em Agudos, onde funcionam, também, unidades de produção e de armazenamento da empresa.
Adquirida pela Duratex nos anos 80, a propriedade (que, à época, já contava com complexo industrial e florestal) fica às margens da rodovia Marechal Rondon (SP 300) e tem aproximadamente 27 mil hectares de extensão. A Mata da Copaíba, espaço utilizado pela empresa para seus projetos de educação ambiental, ocupa uma área de cerca de 20 hectares, no coração da fazenda. No passado, conta Maia, árvores de pinus (que hoje estão sendo, gradativamente, substituídas por eucaliptos) dominavam a paisagem do local.
Depois de uma rápida visita à Avap (um belo conjunto de edifícios feitos com madeira de reflorestamento), fomos conhecer as áreas de vegetação nativa. Lá, ficamos sabendo da importância daquela reserva encravada no meio das plantações de eucalipto: além de ajudarem a preservar a biodiversidade da região, as áreas de vegetação nativa funcionam como uma espécie de sistema imunológico das áreas cultivadas.
“Conservando a mata nativa, ajudamos a manter vivos os predadores naturais de diversas pragas que poderiam atingir o reflorestamento”, explica a bióloga e coordenadora da Avap, Angélica Rodrigues Coelho. Em locais onde a vegetação e a fauna naturais são preservadas, por exemplo, saúvas - talvez as principais inimigas dos eucaliptos (cortam as folhas das árvores) - dificilmente conseguem se proliferar. “A cada mil içás (fêmea em idade reprodutiva) que levantam vôo e acasalam, apenas três conseguem formar um novo formigueiro”, garante o engenheiro José Luiz da Silva Maia.