10 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Brava gente brasileira

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

O nosso País foi se construindo através da chegada de invasores. O que caracteriza o invasor é uma relação de posse com o mundo e uma postura de guerra ou falsidade diante daquele que se opõe à invasão. Assim, não se estabelece um verdadeiro relacionamento construtivo com o outro em busca de algo comum, mas se mantém uma coexistência, na qual cada um busca seus objetivos particulares e dificilmente compreende a maneira de ser do outro. Através de um interessantíssimo “neo-realismo indígena”, no qual nos sentimos verdadeiramente em um universo culturalmente estranho, a cineasta Lúcia Murat nos conta em “Brava Gente Brasileira” um fato ocorrido no Mato Grosso do Sul, na região do Pantanal em 1778, quando os índios da região usam como tática de ataque ao invasor algo muito semelhante ao “Cavalo de Tróia”.

Poucos anos antes – em 1775 –, fora construído, à beira do rio Paraguai, o Forte de Coimbra para assegurar à Coroa Portuguesa este território ameaçado por espanhóis. Na disputa de invasores contra invasores, os índios guerreiros Guaicurus, os primeiros da América Latina a aprenderem a lidar com cavalos, tentam sobreviver nesta terra que parece até hoje continuar a ser de poucos invasores bem-sucedidos. A grande contribuição da modernidade para a vida humana foi a percepção de que o ser humano pode sempre superar os seus limites.

Até o século 16, a humanidade possuía um mundo interessante, mas sem unidade. Os continentes e as culturas se mantinham extremamente distantes não somente pela geografia, mas também pela limitação na locomoção, na falta de convivência com o diferente. Das grandes navegações, passando pela revolução industrial, pelo avanço tecnológico, até chegarmos ao mundo da globalização, o ser humano desenvolveu um processo cada vez mais acelerado de superação dos limites estabelecidos. Neste sentido, o capitalismo foi um grande vencedor. O mercado foi vencendo todas as barreiras e superando todos os limites no que diz respeito à transformação de tudo em mercadoria e nos espaços em mercado de consumo.

Mesmo os movimentos “contracultura”, os movimentos que se opunham ao capitalismo, foram sendo absorvidos pela sociedade de consumo, transformados em mercadoria ou adaptados às leis do capital. Mas não é somente a economia um exemplo da mentalidade emergente da modernidade. O rompimento dos costumes e dos padrões de relacionamento foi sendo superado com o passar do tempo. O ser humano foi percebendo que a padronização do comportamento não condiz com a nossa própria natureza humana. Por ser um indivíduo, o ser humano necessita viver em liberdade para escolher seu próprio estilo de vida, no qual se sinta realmente feliz.

A superação dos limites fez com que o ser humano percebesse que era capaz de construir o universo a seu modo e da forma como deseja. Se para o mundo pré-moderno a superação dos limites era impossível, graças às distâncias geográficas, dificuldade de locomoção, dogmas religiosos, tabus e costumes rígidos, superar os limites tornou-se indispensável a partir da modernidade. Hoje chegamos à possibilidade da construção de uma sociedade na qual vários limites podem ser ultrapassados mas, ao mesmo tempo, os limites devam obrigatoriamente ser discutidos.

Se descobrimos hoje que sempre podemos dar “um passo à frente”, superando a situação na qual nos encontramos, se torna fundamental raciocinar o que desejamos alcançar com a superação de nossos próprios limites. Talvez a questão mais séria para o ser humano no século 21, tanto na esfera individual como na social, seja justamente o sentido da superação dos limites. Em outras palavras: para que a desmedida? O que pretendo alcançar, para onde desejo ir, qual o benefício que procuro ao ultrapassar os limites estabelecidos? Estas são questões fundamentais em qualquer nível da vida humana, seja ela pessoal, científica, social, política ou econômica. O fundamental é a reflexão ética sobre as perdas e ganhos, a própria razão de ser de nossos horizontes abertos.

Muitas formas de limitação nos transformam em verdadeiros escravos de estruturas, instituições, ideologias ou simplesmente convencionalismos morais e sociais. Mas romper os limites nos obriga não somente a pensar sobre o que desejamos alcançar, como também a respeitar quem deseja viver em limites já pré-estabelecidos.

As inovações, os novos costumes e a transformação de paradigmas não podem significar a restrição da liberdade de outros.

Portanto, juntamente com o questionamento sobre o sentido da superação dos limites é necessário se desenvolver a capacidade de negociar os limites, seja no âmbito privado, como por exemplo, no relacionamento conjugal, entre amigos ou companheiros de trabalho, seja na sociedade, entre grupos sociais, políticos e religiosos. A liberdade, a consciência do que fazemos e o respeito mútuo diante das atitudes formam a base obrigatória para uma verdadeira coexistência. Mas coexistir significa mais do que existir ao lado. A coexistência é uma prática diária de uma feliz e dinâmica “com-vivência”. Conviver exige uma verdadeira troca de experiências para o enriquecimento de todas as partes.