Habitualmente somos obrigados a mergulhar num emaranhado de notícias trágicas ao redor do globo: atentados terroristas em Nova Iorque e Madri, as catástrofes ecológicas, a intervenção militar norte-americana no Iraque e Afeganistão, os conflitos intermináveis entre israelenses e palestinos, barbáries, massacres, sombrias, tocantes e sinistras imagens de terror e ódio.
Em clima dramático somos bombardeados pelas cenas de banalização da violência, conduzidos nas teias do desenvolvimento tecnológico, submergimos nos regatos da esperança e somos tragados pela insanidade das pessoas.
Sob a trilha musical de atmosfera melancólica e impressionista, composta por Win Mertens (1953-) somos “convidados” a nos indagar sobre a permanência do espírito trágico na contemporaneidade.
Retomar o pensamento trágico, na atualidade, é inserir-se numa realidade fragmentada. Em pedaços, somos devorados pela política, violência, amizade, amor, loucura, sonho, ambição, religião, alienação, sofrimento e morte. Tudo num caldeirão que fervilha o inconformismo em constante e absurda ebulição.
Sob esse aspecto, a tragédia abandonou o palco. Estabeleceu, no mundo inteiro, seu campo de ação nas relações verdadeiras, ou seja, do dia-a-dia. As conexões poderiam existir no cotidiano, nas manchetes dos jornais, nos relacionamentos afetivos e principalmente nos meandros da política de âmbito nacional e/ou internacional cujas notícias de certo modo influenciam nosso pensar sobre um estado de crise ou desordem social, difundido em diferentes povos e nações.
De fato, vivemos e convivemos com o trágico. Os heróis e os vilões do mau agouro cotidiano digladiam-se num brutal espetáculo televisivo. Catarse! Purificação!
O acontecimento “macabro” não é somente perturbador. Torna-se o ponto limite onde se institui ou se desfaz o sentido. A escolha é nossa, dar ou não conotação lógica ao que lemos, ouvimos, sentimos, pensamos? Importar-se ou não com os outros tão distantes e próximos de nós?
O sentimento funesto da vida é antes a sua aceitação, a jubilosa adesão ao horrível e ao medonho, à morte e à decadência. O reconhecimento lúgubre mesmo do declínio da própria existência nasce do conhecimento fundamental de que todas as formas finitas são apenas ondas temporárias na grande maré da vida. Ondas que nos engolem e sufocam. Arrastam e nos fazem renascer.
O ressurgimento do trágico aponta para essa época marcada pelo absolutismo individualista e a alienação do homem contemporâneo. Alheio a si mesmo e fadado à rotina, ao desprazer, ao embrutecimento e à morte.
Vivenciar a tragédia “moderna”, portanto, é carregar cruzes, enfrentar os obstáculos cotidianos, conhecer a transitoriedade, perenidade e dinâmica das relações político-sociais, consentindo que o conflito, a perda e o sofrimento humano são inevitáveis, respaldando a afirmação de Nietzsche (1844-1900): “Agora vemos a luta, a dor, a destruição de aparências como necessária, por causa da constante proliferação de formas pressionando em direção à vida, por causa da extravagante fecundidade da vontade do mundo.”
O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é doutorando em Ciência Política pela Pontifícia Universidade Católica. Professor do Iesb-Preve e do Colégio Fênix - jreferraz@hotmail.com. Artigo dedicado a todos os alunos de Ciência Política e Filosofia.