09 de julho de 2026
Bairros

Mercado imobiliário se abre para a moradia sustentável

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 3 min

Imagine uma casa cuja construção implicou em reduzidos impactos ambientais; foi alicerçada com materiais de construção reciclados, reutilizados ou biodegradáveis e adota mecanismos de reutilização de água, uso de energia solar e reaproveitamento de produtos recicláveis. Pois bem, esse imóvel existe e hoje representa cerca de 1% do mercado imobiliário de Bauru.

A fatia aparentemente pouco representativa, na verdade, indica uma tendência de efeito multiplicador nos próximos anos. “Bauru seguirá a tendência mundial porque a cada ano o mercado recebe novos profissionais que saem das faculdades comprometidos com uma arquitetura sustentável”, explica a pesquisadora Maria Solange Gurgel de Castro Fontes, professora doutora do curso de arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Assim como a pesquisadora, outros profissionais, entre arquitetos, engenheiros, técnicos e pessoas ligadas à indústria da construção civil em Bauru, têm se voltado cada vez mais a esse promissor mercado, que no Brasil tem origem recente. A idéia de construção sustentável existe na Europa, Ásia e América do Norte há décadas, mas aqui esse conceito foi introduzido durante a Conferência Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco 92, realizada no Rio de Janeiro e onde o tema foi discutido.

Por conta dessa precocidade, é que muitos insistem em resumir a construção sustentável à adoção de quatro itens: aquecedores solares, cisternas para captação da água da chuva, manifestação de tratamento de esgoto e produtos como torneiras e interruptores com sensores de presença.

Ainda de acordo com Fontes, uma construção sustentável abraça também produtos e conceitos ecológicos, mas não se resume só a eles. Entre eles encontram-se produtos reciclados, como telhas cuja matéria-prima principal inclui embalagens longa vida e conduítes produzidos a partir de embalagens de agrotóxicos desintoxicadas.

O mercado já conta com cimento e plásticos que de ecológicos não tinham nada, mas que hoje ganharam um aspecto sustentável. Em construções nas grandes cidades, eles já podem ser encontrados, como o cimento derivado de resíduos da industrial siderúrgica e os plásticos úteis, que podem passar por um processo de reciclagem e retornarem para a construção civil na forma de diversos utensílios, como forros, madeira plástica e de tubos para condução da água.

O engenheiro Marcos Wanderley Ferreira, presidente da Associação do Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos (Assenag) de Bauru, diz que esse conceito de construção sustentável não pode ser difundido de uma hora para outra em uma sociedade onde a preocupação em preservar o meio ambiente ainda é recente.

De acordo com o engenheiro, por enquanto, a construção civil só consegue incorporar as práticas que, além de ter uma parcela de preservação de meio ambiente, oferecem economia no orçamento ao proprietário do imóvel.

“Tanto a instalação de aquecedores solares quanto a captação e utilização da água da chuva para fins menos nobres, como lavar quintais, calçadas e regar jardins nas residências, se refletem em consumo menor e na conta de energia do fim do mês e de água, que chegará em valor menor”, explica Ferreira.

Como toda situação tem suas exceções, muitos investidores já optaram, inclusive em Bauru, por um material sustentável, mas que não oferece nenhum tipo de retorno financeiro: o calçamento permeável. O produto permite a absorção da água da chuva pelo solo, desafogando em muito o sistema de captação de águas pluviais do município, que por diversas vezes já tem dado sinais de limitação.

A pesquisadora Maria Solange explica que não há casa sustentável sem ser saudável. Para ela, a finalidade de uma construção sustentável não é apenas preservar o meio ambiente, mas também ser menos invasiva aos seus moradores.

“É como se fosse um tipo de ecossistema particular, onde todas as interações devem ocorrer de maneira a reproduzir ao máximo as condições naturais: umidade relativa do ar, temperatura, alimento, geração de resíduos e sua transformação, conforto, sensação de segurança e bem-estar”, conclui.