Uma forma de retribuir o carinho recebido das mulheres responsáveis por sua criação. Este foi o motivo que levou o até então adolescente Malcolm Montgomery, louco por música, a escolher a medicina como profissão. Com 56 anos – 30 dedicados à ginecologia – o médico “das estrelas”, como também é conhecido, vem a Bauru no próximo dia 8 de março para a palestra-show “Mulheres, suas dores e seus amores”, em evento que será realizado a partir das 20h no Bauru Tênis Clube (BTC). Parte da renda dos ingressos será revertida para a Associação Bauruense de Combate ao Câncer (ABCC).
A palestra-show aborda temas referentes ao universo feminino de forma direta e descontraída, com canções e momentos de reflexão, e é dirigida ao público feminino. Cantando e tocando violão, o médico entremeia considerações sobre as fases da vida da mulher com canções dos Beatles e MPB. Nesta entrevista ao Jornal da Cidade, Malcolm afirma que, para entender as mulheres, é preciso compreender a natureza e afirma que a menstruação não é necessária. “A forma como ela (palestra) é passada é muito bonita”, afirma. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
JC - Como será a palestra em Bauru?
Malcolm Montgomery - Essa palestra é feita há algum tempo e surgiu através de algumas paixões que eu tinha em relação a arte, cultura e música. Coloque isso com a assistência médica e psicológica em consultório e hospital em praticamente 30 anos de ginecologia e obstetrícia. Eu sempre quis fazer algo que comunicasse melhor a medicina, de uma forma mais reflexiva. Quando a gente cutuca um pouquinho mais e a pessoa se mexe, ela vai refletir e manter suas próprias emoções e fantasias, fazendo com que sua atitude mude nesse processo. Para a palestra, fizemos um roteiro que trata da mulher bebê até a mulher idosa, passando por todas as suas fases. Tento passar a parte mais importante que um consultório médico me mostrou nesses anos todos. E mostramos isso na palestra de uma forma lúdica, com música, quadros de Salvador Dalí, cultuando o emocional dos quadros. Com as músicas que toco, fica um equilíbrio bom entre a psicologia, a medicina e a arte.
JC - E por que fazer essa mistura entre arte e medicina?
Montgomery - Eu acho que a arte e a música deixam as pessoas mais humanas em algumas situações da vida. Isso contribui bastante para alguns temas que a gente vai falar. Isso torna a palestra mais atrativa. Não que seja estática, é igual a um filme, onde toco, falo e canto. São coisas que sempre fiz. Quanto adolescente, sempre toquei e gostei de Beatles. Isso é uma forma diferente de passar uma informação séria, responsável e mobilizando a reflexão.
JC - A pergunta que não quer calar: dá para entender as mulheres?
Montgomery - Olha, eu diria que boa parte do sexo oposto é compreensível para quem trabalha com mulheres há 32 anos. Mas tem um mundinho delas que é meio difícil da gente conseguir entender. Entender as mulheres é como entender a natureza.
JC - Suponho então que você nunca teve problemas com o sexto oposto...
Montgomery - Eu vivi no meio de muitas mulheres. Minha avó, mãe e tia foram mulheres muito fortes, afetivas e importantes na minha formação. Então eu acho que a escolha por medicina tenha sido uma forma de retribuir essas mulheres que me criaram, todas as forças espirituais que me passaram. A mulher é um ser que tem uma força que nós homens não conseguimos atingir. Eu nunca tive problema com as mulheres com quem me relacionei no sentido de brigar, essas coisas. Eu inclusive tenho uma relação muito boa com a minha ex-mulher, com quem tive dois filhos.
JC - Como você analisa a mulher do século 21?
Montgomery - A mulher ainda se submete a alguns opressores na sociedade moderna, apesar de tudo que alcançou em relação a autonomia e liberdade. A mulher da Idade Média tinha um cinto de castidade que era trancado após o marido ir para a guerra. O que acontece é que hoje a mulher ainda usa um cinto de castidade em relação a sexo, menstruação, orgasmo, só que a diferença é que essa chave fica nas mãos dela. A mulher hoje é malabarista, pois é mãe, mulher, esposa, filha, profissional, então existe um certo estresse quando se quer cumprir esses papéis com perfeição.
JC - Qual o período mais difícil vivido pela mulher?
Montgomery - É o pós-parto, que é a fase vulnerável da mulher, muito mais do que menopausa. Há muitas mudanças nesse período, como corpo, vínculo de atividade e afetividade.
JC - É verdade que a mulher não precisa menstruar?
Montgomery - A mulher biologicamente correta é aquela que engravida a partir dos 15 anos, tem 12 filhos e 12 amamentações até os 45 anos. Isso significa que a mulher vai menstruar pouco e ter poucos ciclos. Com a mudança da mulher entrando para o mercado de trabalho, ela deixou de engravidar. A mulher de antigamente tinha no máximo 80 ciclos menstruais em toda a vida reprodutiva e a de hoje tem de 400 a 500 ciclos, pois engravida muito pouco. Isso gerou uma adaptação que levou a doenças. O tratamento que se faz para irregularidades como a cólica é suspender a ovulação, o ciclo e a menstruação através de anticoncepcionais seqüenciais. A revista “Time” coloca a suspensão da menstruação como um dos dez maiores avanços da medicina.
JC - Você é conhecido por ter clientes famosos. Como é lidar com esse tipo de público em relação a uma paciente normal?
Montgomery - Eu sempre convivi com música desde pequeno e tive uma namorada que era atriz aos 17 anos. Iniciei na TV porque era professor de cursinho e comecei dando aula no telecurso da TV Cultura. E aí, por acharem que eu tinha um português legal e habilidade para falar com a câmara, fui nos programas educativos da emissora que tratavam de cultura e mulher. A partir daí fui entrando mais na mídia, naturalmente, sem assessor de imprensa, sem nada. Trato as pessoas de forma igual. Acho que é por isso que atendo essas pessoas famosas.
JC - Dê um exemplo dessas artistas. Sei que uma delas é a Ana Hickmann...
Montgomery - Na verdade, eu não posso falar nome de pacientes. Tudo que sai em relação a pessoas que atendo acontece porque os outros falam. A Hebe fala muito de mim, então falaram que ela era minha paciente.
JC - Essa exposição na mídia ajuda ou atrapalha?
Montgomery - Isso tanto ajuda quanto atrapalha. É só tomar um pouco mais de cuidado e evitar o lado negativo dessa exposição. O lado positivo é entrar na TV como um educador, um cara que informa com responsabilidade. O lado negativo é alguém interpretar errado aquilo que você falou. A mídia pode facilitar ou dificultar alguns assuntos. Temos exemplos de complicações que a mídia gerou, como a reposição hormonal, que criou um pânico completamente enganoso. A mídia tem que tomar muito cuidado com o que coloca e de que forma o faz.
JC - Já foi chamado de charlatão?
Montgomery - Sem dúvida. Uma vez me perguntaram por que o Dráuzio Varella, que também está na mídia, não é tão polemizado como eu. Ele fala sobre doença, câncer e morte. Eu lido exatamente com o contrário e o inconsciente coletivo é muito mais aberto para a tragédia. Parece que o médico que trabalha com tragédia é mais sério.
JC - O livro que escreveu depois de sua separação foi um desabafo?
Montgomery - Tudo o que escrevo é pessoal. Meu primeiro livro foi escrito após minha separação, quando meus filhos ficaram comigo. Eu não entendia muito bem porque, ao se separar, você tem reações tão estranhas da pessoa com quem conviveu tanto tempo. Também escrevi um livro a partir de uma namorada que teve problemas com abusos sexuais, mudando uma série de situações para ninguém saber quem era a pessoa. Todos baseados em fatos muitos pessoais.
JC - A consulta do doutor Malcolm é cara?
Montgomery - Se é uma pessoa que não pode pagar, sempre ajudo. Agora quem pode pagar, paga naturalmente como para qualquer outro médico. O que fica difícil é responder e-mail, porque recebo uma montanha deles todos os dias.
JC – O que acha da política?
Montgomery - Fui convidado para participar de um programa de governo em São Paulo (ele não revela o período), porém não teria estômago. O homem que entra na política tem que conviver com hipocrisia e falsidade e eu jamais conseguiria andar por esse campo. Se cheguei até aqui foi por trabalhar sempre com a verdade.
• Serviço
Palestra “Mulheres, suas dores e seus amores”, com o médico ginecologista e obstetra Malcolm Montgomery. Dia 8 de março, sábado, às 20h. no Bauru Tênis Clube (BTC). Informações pelo telefone (14) 3104-5655