Caracas - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ameaçou na noite de anteontem nacionalizar as empresas colombianas com negócios no país. “Ministros, vamos fazer um mapa das empresas colombianas. Algumas podem ser nacionalizadas. Não estamos interessados em investimentos colombianos aqui”, disse o presidente em entrevista junto do colega equatoriano, Rafael Correa.
O comércio entre os dois países alcançou US$ 6,51 milhões no ano passado, mas, para Chávez, a Venezuela não pode mais depender “de nenhum grão de arroz da Colômbia”. “No ano passado, por nossa vontade política, o intercâmbio comercial chegou a US$ 6 milhões e eu pessoalmente ordenei dar prioridade à Colômbia para incrementá-lo”, disse Chávez. “Tudo isso Uribe jogou fora.”
A declaração do presidente não foi bem recebida por setores produtivos e empresariais locais, para os quais há uma dependência comercial entre os dois países. Eles dizem recear que aumente a atual escassez de alimentos na Venezuela.
A Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela (Fedecamaras) divulgou um comunicado pedindo para que as relações comerciais não sejam rompidas. Segundo o comunicado, a Colômbia é responsável por 30% dos principais produtos consumidos na Venezuela e pela geração de 300 mil empregos diretos.
Reação tímida
Também na Colômbia o empresariado pressionou o Executivo para que trabalhasse a fim de impedir as possíveis nacionalizações. Mas o governo de Álvaro Uribe reagiu timidamente, dizendo que espera o cumprimento de contratos e o pagamento de indenizações.
“Esperamos que a Venezuela respeite o direito de propriedade. Se descumpri-lo, como fez em épocas passadas, que pague indenizações às empresas”, disse o ministro da Fazenda, Oscar Ivan Zuluaga.
Um dos principais focos de pressão colombianos para que Uribe negocie com Chávez é o pólo têxtil de Medellin, responsável por cerca de 35% da produção do país e base eleitoral de Uribe.
“Crime de guerra”
Chávez também afirmou que a ofensiva militar da Colômbia que matou ao menos 17 guerrilheiros das Farc foi um “crime de guerra”.
Nicarágua rompe relações
A Nicarágua anunciou ontem que rompeu relações diplomáticas com a Colômbia, em apoio ao Equador. “A Nicarágua, em solidariedade com o povo equatoriano e reivindicando a si mesmo (...) pelas reiteradas ameaças militares por parte do governo colombiano, anuncia e informa que rompe relações diplomáticas com a Colômbia”, disse o presidente, Daniel Ortega, em entrevista coletiva após se reunir com seu colega equatoriano, Rafael Correa.
____________________
Marcha da oposição colombiana reúne milhares
Bogotá - Aos gritos de “Uribe fascista, você é terrorista” e “por que nos assassinam, se somos a esperança da América Latina” e sob um fortíssimo policiamento, milhares de pessoas paralisaram Bogotá durante toda a manhã e início da tarde de ontem em uma imensa passeata de protesto contra o desaparecimento de 15 mil pessoas, execuções extrajudiciais e deslocações forçadas causadas nos últimos anos por paramilitares.
A “marcha” também era uma resposta a protesto semelhante apoiado pelo presidente Álvaro Uribe contra as Farc no mês passado. Ontem, o público era bastante diverso. Havia estudantes universitários, secundaristas, punks encapuzados, sindicalistas, senhoras, bandas de música, organizações dos movimentos negro e indígena, sindicatos. Eles partiram de 12 pontos diferentes da cidade para um encontro marcado para meio-dia na praça Bolívar, em frente à prefeitura de Bogotá, que apoiou a passeata.