09 de julho de 2026
Articulistas

A Nação humilhada


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Indignação - é a palavra que encontro para traduzir o sentimento de muitos brasileiros diante do tratamento dado pela polícia de imigração da Espanha a tantos jovens brasileiros. Barrados no aeroporto, isolados numa sala sem direito a visita, dez horas sem água e refeições, bagagens e medicamentos retidos, celulares confiscados, estupidez, arrogância e desrespeito para com cidadãos de um país que durante décadas acolheu de braços abertos milhares de imigrantes ibéricos, quando lá faltava o pão. Agora que o ciclo econômico se inverteu e a abastança chegou à cozinha graças a ajuda da Comunidade Européia, não é justo que brasileiros sejam assim tão maltratados. Nem sequer especificam as razões da inadmissão. Pode ser por falta de 70 euros por dia de estada programada; ou por falta de cartão de crédito, de passagem de volta, de reserva de hotel, de guia de turismo. Ou até por falta de explicação. Para o policial a moça tem cara de prostituta, embora prove ser uma cientista a caminho de um congresso em Lisboa. Vale o seu julgamento. Mais de 600 passageiros voltaram do aeroporto de Barajas, somente este ano. Em Heatrow, aeroporto de Londres, foram sete mil os deportados brasileiros em 2007, só porque esqueceram de chamar o funcionário de Sua Majestade de “sahib”.

É evidente que o Itamaraty precisa mostrar que isto aqui não é uma república bananeira. Mesmo que fosse, no mundo civilizado ninguém merece tratamento tão grosseiro. Os espíritos genocidas de Pizarro e Cortés devem ter impregnado a polícia espanhola que vê na cara de cada brasileiro um Montezuma ou Atahualpa. Famílias com crianças e, principalmente turistas jovens são obrigadas a voltar ao “país e merda”, como lhes disseram para completar a humilhação. Na bagagem, amargas lembranças em vez de souvenires ou certificados de pós-graduação. O embaixador espanhol no Brasil nega que haja discriminação. Então, como se explica tanta arrogância? Entendemos que os imigrantes ilegais são um problema nos países ricos. Mas, esse é um peso que eles têm que carregar depois de séculos de exploração colonial na América, na África e na Ásia. Os europeus e norte-americanos adoram que exista gente disposta a realizar serviços sujos como o de lavar latrinas, a troco de algumas moedas. Os desempregados nativos preferem viver do assistencialismo do estado. Com o dinheiro do seguro-desemprego sobrevivem sem precisar pôr a mão na merda. Por esse motivo expande-se nos países ditos “desenvolvidos” a “low-paid industry”, a indústria do trabalho a baixo custo, característica também do Japão. É esse dinheirinho que atrai a imigração.De nada vai adiantar os espanhóis, ingleses e norte-americanos erguerem muralhas nas suas fronteiras e despejar azeite fervendo em quem tentar a escalada. É justamente esse tipo de atitude que alimenta o ódio e o terrorismo ideológico.

Temos que melhorar a distribuição de renda no Brasil, criar empregos, dar oportunidade aos jovens para que estes não tenham que sofrer com condições aviltantes de trabalho. Muito menos se prostituírem no tráfico internacional de mulheres. O governo Lula melhorou os indicadores, temos que reconhecer. Mas a velocidade de correção das injustiças sociais ainda é lenta. Quando chegarmos a um nível compatível ninguém terá necessidade de enfrentar policiais aduaneiros que olham para a fotografia do passaporte do brasileiro fazendo cara mais feia que traseiro de um muar, recém-usado.

Enquanto tempos melhores não chegam espera-se que pelo menos o Itamaraty mostre que brasileiro não tem sangue de barata apesar da nossa imagem de cucaracha. Nem será preciso maltratar os visitantes europeus ou inventar problemas para impedi-los de desembarcar. É só fazer uma limpeza no litoral fluminense e do Nordeste onde milhares de gringos mafiosos exploram jogos clandestinos, empregam brasileiros sem respeitar as exigências legais, vivem da prostituição e de arapucas imobiliárias. Põe esses malandros para fora. A nação humilhada agradece.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC