09 de julho de 2026
Política

‘Lula superou descrença empresarial’

Por Fábio Zambeli | Da APJ, especial para o JC
| Tempo de leitura: 7 min

Egresso da iniciativa privada, onde consolidou sua carreira como alto executivo do Banco Santander e da Volkswagen, o jornalista e ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, acredita que os resultados da economia ajudaram o empresariado a superar a desconfiança com o governo Lula.

O ministro, prestes a completar um ano no cargo, defende a condição do presidente petista de “caixeiro-viajante”, difundindo os produtos nacionais em novos mercados, especialmente o etanol.

“Tenho viajado com o presidente para o Exterior. E ele é mesmo um caixeiro-viajante. E acho que é o papel de um presidente mesmo. Ele tenta vender, ela fala dos produtos. No caso do etanol, por exemplo, ele é um embaixador do etanol no mundo todo.” Leia mais a seguir.

Pergunta - Até que ponto a ascensão do presidente Lula ao governo contribuiu para o distensionamento das relações entre classe patronal e os trabalhadores, representados por seus sindicatos?

Miguel Jorge - Eu diria que contribuiu, mas não pela origem sindicalista do presidente Lula. O distensionamento ocorreu muito mais pelo processo de desenvolvimento econômico que se deu nos anos do governo Lula. O tensionamento sindical se dá nas fases de recessão. Se você perceber o que aconteceu nos últimos anos... Nós estamos no vigésimo terceiro trimestre consecutivo de crescimento da economia. Isso significa alguns anos de crescimento. As negociações entre os setores empresariais e os sindicatos estão se dando num clima totalmente diferente. Porque como as empresas estão ganhando, fica mais fácil negociar e dar aumento real para os trabalhadores. Em todos os setores da economia as negociações sindicais estão levando a ganhos acima da inflação para os trabalhadores.

Pergunta - Inclusive no setor automotivo?

Miguel Jorge - No caso da indústria automobilística, por exemplo, o último acordo foi considerado um dos melhores. Por que? Porque a indústria automobilística está batendo recorde em cima de recorde. Ela está tendo lucro. Se está tendo lucro, ela pode dar reajuste real. A massa salarial industrial teve um crescimento muito grande. Não há muita razão para que você tenha a tensão. Ela se dá quando o trabalhador não conseguia repor nem as perdas da inflação. O que significava que ele perdia poder de compra a cada ano. Neste crescimento, há uma parceria entre o setor produtivo e os sindicatos, fazendo com que os ganhos da indústria se transfiram, em parte, para os trabalhadores. Então este distensionamento tem muito mais relação com o crescimento do que com a origem sindical do presidente.

Pergunta - E esta lógica se aplica também à desconfiança do empresariado em relação ao presidente, que hoje quase desapareceu?

Miguel Jorge - Você pode ver isso em dois ponto-de-vista. Do ponto-de-vista dos trabalhadores, que poderiam imaginar que a vitória do presidente Lula fosse transformar o Brasil em um paraíso proletário, dos operários. E ia acontecer o que? O presidente influenciaria nas políticas relacionadas ao trabalhador de uma maneira invasiva. Ao mesmo tempo, os empresários imaginavam, pelas relações do presidente com economistas mais à esquerda, que ele seria um presidente populista da pior espécie. Um populista de esquerda. E o presidente mostrou que não era nem uma coisa nem outra. Não seria presidente dos sonhos dos trabalhadores, embora os ajudasse na medida em que estimulasse a produção, e também não foi o presidente dos pesadelos dos empresários. Porque ele sabia que só um País estável, em que você tivesse política fiscal correta, controle de inflação, era que poderia crescer e fazer com que os empresários ganhassem. Com os empresários ganhando, os trabalhadores também ganham. O presidente insiste muito em seus discursos. Ele diz que quer que as empresas continuem ganhando dinheiro, que os bancos continuem ganhando dinheiro. Porque isso significa que o País está em um bom caminho. As empresas perdendo dinheiro fariam com que os trabalhadores também perdessem dinheiro.

Pergunta - O texto da Reforma Tributária, que o senhor reconhece não ser a ideal, mas a possível, conseguirá desonerar a produção?

Miguel Jorge - O presidente na semana passada se reuniu com mais de 100 representantes do empresariado em âmbito nacional. Eu fiquei impressionado porque houve uma unanimidade, uma aceitação muito grande da proposta. Embora, com algumas ressalvas, em que diziam que é preciso avançar mais, que seria uma proposta tímida, todos foram a favor desta reforma. Não houve nenhum empresário que tenha dito que a reforma não é boa. Todos foram unânimes em dizer que deveria ser aprovada o mais rápido possível. E que deveria avançar.

Pergunta - Ela desonera a folha de forma satisfatória?

Miguel Jorge - Com relação à folha, ela desonera, tira vários custos embutidos na folha. Isso certamente ajudará na geração de empregos, que é uma das propostas da reforma.

Pergunta - E as reformas trabalhista e sindical, que também são clamores do setor produtivo, ainda estão na pauta para este governo?

Miguel Jorge - Elas virão. O primeiro passo, realmente, é a reforma tributária que está sendo encaminhada. Mas as reformas política, sindical, trabalhista, elas todas deverão vir. O que nós não podemos é fazer uma reforma ampla, geral e irrestrita. Porque os interesses são muitos. No caso das outras reformas também. Nós não podemos mandar ao Congresso quatro reformas de uma só vez porque no fim nenhuma delas passaria. Vamos com calma, aos poucos. O fato de a reforma tributária, que há um consenso nacional em relação à necessidade dela. É mais ou menos como em qualquer tipo de negociação. Você começa a negociar com os pontos mais fáceis. Comecemos pelos pontos em que todos concordam e depois vamos avançando para os pontos mais difíceis.

Pergunta - O presidente Lula sempre diz que age como uma espécie de ‘caixeiro-viajante’ difundindo os produtos brasileiros internacionalmente. Em que medida o governo tem este papel e atua neste sentido?

Miguel Jorge - O presidente tem toda a razão quando ele diz e faz isso. E ele tem feito isso. Tenho viajado com o presidente para o Exterior. E ele é mesmo um caixeiro-viajante. E acho que é o papel de um presidente mesmo. Ele tenta vender, ela fala dos produtos. No caso do etanol, por exemplo, ele é um embaixador do etanol no mundo todo. E não há nenhum desmerecimento em torno disso. Eu me lembro, por exemplo, que a Rainha Elizabeth veio ao Brasil para vender aviões britânicos. Depois o príncipe Philip voltou ao Brasil para vender aviões. Isso acontece com freqüência. Ministros, presidentes fazem isso com freqüência. Eu me lembro que o presidente Itamar Franco numa conversa no Palácio me dizia que estava impressionado com o fato de o presidente Bill Clinton ter telefonado pessoalmente para ele para dizer que estava interessado em que o Brasil, por meio do Sivam, analisasse com profundidade a proposta da Raytheon para fornecer equipamentos. Dizia o presidente Clinton que aquela medida geraria 20 mil, 30 mil empregos nos Estados Unidos. Por que? O presidente, ao fazer a venda dos aviões da Embraer, não está preocupado com o produto, mas com quem está por trás do produto, com quem faz o produto. Eu acho que ele está absolutamente certo. O ministro das Relações Exteriores tem feito este papel, o ministro do Desenvolvimento, obviamente, tem que fazer isso.

Pergunta - E este processo é contínuo...

Miguel Jorge - Sim, tanto que agora no fim do mês iremos para a Índia com uma missão de empresários. Depois iremos diretamente para a Colômbia com outra missão. Nós já estivemos recentemente na Venezuela com mais 130 empresas que fizeram negócios lá. E há outras missões para países árabes e da Europa. Nós temos que vender o máximo possível. Acho que todo ministro deveria ser caixeiro-viajante. Todo ministro deveria fazer discurso em favor do produto brasileiro lá fora.

Pergunta - Os fundamentos da macroeconomia parecem dificultar a balança comercial. O senhor concorda?

Miguel Jorge - O câmbio tem favorecido as importações de máquinas e bens de capital para o Brasil.

Pergunta - O suficiente para modernizar o parque fabril brasileiro?

Miguel Jorge - Pode não ser suficiente, mas é fundamental. Cerca de 70% das importações têm sido de máquinas, equipamentos e bens de capital, insumos para escritórios, computadores de grande porte, por exemplo. Empresas estão importando máquinas de última geração para produzir com mais qualidade. Na semana passada, um presidente de uma importante indústria têxtil que exporta para a Inglaterra me dizia que já conseguiu trocar todos os teares dele por teares mais modernos, e isso ia garantir mais eficiência, mais qualidade e melhores condições de competir. Acho que o importante é que as importações não estão se concentrando nos bens do consumo. Isso vai dar um salto de produtividade. Nos últimos quatro anos aumentamos a produtividade em 20%. Sem perda de emprego, aumentando o nível de emprego. Esta equação é fundamental para que possamos modernizar nossa base industrial, que é bem diversificada.