11 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Paula Carazzatto - Pioneira da farmácia de manipulação

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 10 min

Quando a farmacêutica Paula Carazzatto, 48 anos, resolveu abrir em Bauru a Pharmácia Specífica, não tinha idéia de que estava fazendo história na cidade. Ela foi a primeira a trazer de volta as farmácias de manipulação de fórmulas, que praticamente desapareceram após a industrialização dos medicamentos, na década de 40.

Encorajada pelo médico dermatologista Diltor Opromolla (falecido) e com o apoio do então namorado, hoje marido, Sylvio Augusto Carazzatto, ela inaugurou a farmácia em outubro de 1984, em um salão acanhado de apenas 50 metros quadrados na quadra 4 da rua Gerson França. Cinco anos mais tarde, ela transferiu o negócio para um prédio maior na quadra 14 da rua Gustavo Maciel, onde permanece até hoje.

A empresa continuou crescendo e, em 1992, inaugurou uma filial na rua Antônio Alves. Atualmente, a farmácia emprega 100 pessoas na produção de medicamentos que abrangem quase todas as áreas da medicina, como dermatologia, reumatologia, pediatria, gastroenterologia, entre outras.

Virginiana perfeccionista, Paula cuida pessoalmente das reclamações dos clientes. Na opinião dela, os clientes prestam um serviço gratuito à empresa quando reclamam de algum serviço que não foi bem feito. “É a exigência do cliente que faz a empresa crescer. Ninguém reclama do nada. Por isso, a reclamação tem de chegar até o dono”, diz ela, na entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

A preocupação com a satisfação e o atendimento ao consumidor chegou ao ponto de ela perder um casamento para atender uma cliente que precisava com urgência de um medicamento para controlar a pressão arterial.

Apaixonada por crianças, ela conta que um de seus sonhos é ter um orfanato para cuidar dos pequeninos. Enquanto esse sonho não se realiza, ela se diverte, e muito, com a neta Júlia, de 1 ano e 3 meses. Por enquanto, a primeira e única da família.

Jornal da Cidade - Como foi o início da sua vida profissional?

Paula Carazzatto - Eu estudei ciências farmacêuticas na Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Campinas, com ênfase em farmácia industrial. Me formei em 1982 e logo em seguida comecei a dar aulas na faculdade como professora assistente na disciplina de farmacotécnica e tecnologia de cosméticos, mas a minha idéia era montar uma farmácia de manipulação de fórmulas. Na época, eu morava em Bocaina e Bauru não estava nos meus planos. Eu nem conhecia a cidade. Hoje sou bauruense de coração.

JC - Você é filha única?

Paula - Não. Eu sou a segunda de um grupo de seis irmãos. Todos nasceram em Bocaina e todo fim de semana eu vou para lá com a família.

JC - Você tem quantos filhos?

Paula - Tenho três filhos. O Guilherme, 22 anos, está casado e cursa o último ano de farmácia. Ele trabalha comigo. A esposa dele, Daiane, também é de Bocaina. Eles têm uma filha, a Júlia, que é um tesouro. Ela tem 1 ano e 3 meses. Meu hobby hoje é ficar com ela. O Rodolpho, 21 anos, meu outro filho, começou a fazer farmácia e parou. Ele descobriu que não era a praia dele e foi fazer rádio e TV no Centro Universitário Belas Artes, em São Paulo. Ele está adorando o curso. Tem também a Isabella, 18 anos, que terminou o ensino médio agora e ainda não sabe que curso vai fazer. Assim como eu, quando eu era adolescente, ela disse que quer ser atriz e cantora.

JC - Antes de pensar em ser farmacêutica, você queria ser atriz e cantora?

Paula - Eu adorava fazer peça de teatro, representar, fazer circo. Nunca na adolescência eu pensava em ser farmacêutica, isso ocorreu bem ao acaso. Eu participava de grupos de canto na igreja. Eu criava peças de teatro, mas tudo improvisado, tudo muito amador.

JC - E esse sonho de ser atriz e cantora durou até quando?

Paula - Até eu cair na real e ver que precisava de alguém para bancar esse sonho e não tinha ninguém. No caso da Isabella, faz sete anos que ela freqüenta curso de canto, ela tem aulas de piano, aprendeu a tocar violão e agora está fazendo o curso de teatro do Paulo Neves. Acho que ela está no caminho certo, mas ainda penso que ela tem de fazer alguma faculdade. Ela ainda está decidindo o que vai fazer na vida.

JC - Quando você decidiu que queria ser farmacêutica?

Paula - Depois de muito tempo, eu me dei conta que quando era criança tinha a mania de colecionar bula de remédio. Eu não entendia nada, mas achava os nomes bonitos. Nós tínhamos um vizinho que era farmacêutico e eu sempre pegava as bulas que ficavam dentro das caixinhas vazias. Quando eu lembrei disso, eu falei que, embora nunca tenha sonhado em ser farmacêutica, alguma coisa ligada a isso havia no meu subconsciente. Sempre gostei de química, mas as coisas foram surgindo meio por acaso. Quando comecei a fazer o curso de farmácia, eu não tinha certeza se era aquilo que eu gostava.

JC - Por que, então, decidiu fazer o curso de farmácia?

Paula - Com 17 anos, eu fui para Campinas para fazer cursinho. Tinha uma prima que morava lá e havia terminado o ensino médio e queria prestar vestibular para medicina. No segundo ano de cursinho, ganhei uma inscrição para o curso de farmácia. Tinha feito tantas inscrições para o curso de medicina, que o diretor do cursinho me deu de presente a inscrição para o curso de farmácia, que a PUC estava inaugurando. Eu fiz e passei. Decidi, então, fazer o curso e, caso não gostasse, trancaria o curso ou tentaria transferência para outro. Quando chegou na metade do ano, já estava fazendo estágio no hospital-escola da PUC, que é um hospital de grande porte. Fazia plantão na farmácia do hospital. Foi aí que descobri que jamais conseguiria ser médica. Percebi que aquele ambiente de hospital não tinha absolutamente nada a ver comigo. Se eu tivesse iniciado o curso de medicina, teria largado.

JC - Por qual motivo?

Paula - O sofrimento alheio me incomoda e o médico, muitas vezes, não tem como resolver isso. Na farmácia, eu me sinto mais útil, porque quando nós fazemos o medicamento eu sei que o meu trabalho, se for bem feito, vai contribuir de alguma forma para aliviar uma dor e até mesmo tirar uma mancha na pele de alguém que está fazendo um tratamento estético. Deus faz tudo certo. Eu teria largado o curso de medicina. Eu não consegui fazer o estágio dentro do hospital. Eu troquei por outro dentro da universidade. Ter contato com pacientes com câncer e da pediatria era um sofrimento para mim.

JC - O que você fez depois que concluiu o curso?

Paula - Eu terminei a faculdade em 1982. Prestei um concurso para dar aulas na PUC, passei e fiquei por lá mais uns três anos. Nesse tempo, surgiu a idéia de montar a farmácia. Inicialmente, pensei em montar em Jaú. Em julho de 1983, eu e o Sílvio (marido), que na época era meu namorado, começamos a procurar um lugar em Jaú para montar a farmácia, mas conversando com um amigo que tinha farmácia em São Paulo, ele sugeriu que eu montasse em Bauru, por ser uma cidade maior e que não tinha farmácia de manipulação de fórmulas. Ele contou que atendia muitas encomendas de Bauru. Depois, conversando com a minha sogra, a dona Ude, ela sugeriu que eu falasse com o médico dermatologista Diltor Opromolla sobre a intenção de montar a farmácia e saber a opinião dele. Eu liguei e marquei um horário. Foi a melhor coisa que eu fiz. Esse médico foi um enviado de Deus na minha vida. Ele ficou maravilhado com a idéia de Bauru voltar a ter uma farmácia de manipulação. Eu e o Sílvio ficamos empolgados e começamos a procurar um lugar em Bauru. Encontramos um salão de 50 metros quadrados na quadra 4 da rua Gerson França. Inauguramos a farmácia em outubro de 1983. Este ano, ela completa 25 anos.

JC - E de onde surgiu o nome Pharmácia Specífica?

Paula - Eu queria que farmácia começasse com “ph”, para estabelecer uma marca e também porque começava com “p” de Paula. Isso definido, eu precisava de uma outra palavra que começasse com “s” de Sílvio. Esse nome levou tempo para ser definido. Um dia eu pensei que nada era mais específico do que algo feito exclusivamente para você. Aí eu pensei na palavra specífica, com “s” mudo. Foi um momento iluminado. Nós até registramos o nome.

JC - É verdade que você é perfeccionista?

Paula - Hoje, eu me policio um pouco porque senão você não faz nada. A perfeição não existe, mas é bom estar sempre em busca dela. Algo pode estar bom, mas poderia estar melhor. É isso que norteia a farmácia. Todo mundo é exigente como cliente. Eu sempre falo para os funcionários se colocarem do lado de fora para ver como eles gostariam de ser atendidos. O cliente quer agilidade, cortesia, simpatia, preço. Nós, como clientes, queremos tudo. Nós somos exigentes e está certo. É a exigência do cliente que faz a empresa crescer. Ninguém reclama do nada. Por isso, a reclamação tem de chegar até o dono. Muito desse serviço de atendimento ao cliente é para inglês ver. Por isso, até hoje, eu cuido pessoalmente das reclamações dos clientes.

JC - De que forma essas reclamações chegam até você?

Paula - Elas chegam por meio de formulários, no balcão ou por telefone. Eu verifico o que está acontecendo, chamo os responsáveis, vejo o que dá para fazer e ligo para o cliente. E agradeço quem reclama, porque quando isso acontece, ele está fazendo um favor para a empresa. Ele presta um serviço gratuito quando expõe um ponto falho, que precisa ser corrigido.

JC - Além das reclamações, tem mais alguma coisa que te incomoda?

Paula - Questões ligadas ao meio ambiente. Dentro da empresa, nós fazemos coleta seletiva. Mesmo em casa, eu não consigo colocar lixo que pode ser reciclado junto com o lixo orgânico. A minha preocupação é que mundo eu vou deixar para minha neta Júlia. Eu conclui que se nada for feito, o lixo vai acabar com o mundo. Sacolinha de plástico me incomoda demais. Pra tudo tem uma. Elas não têm fim. As compras de mercado são colocadas em sacolas plásticas, o lixo do banheiro também, o lixo da cozinha, que poderia virar adubo, é colocado nessas sacolinhas. Numa visão futurista, eu vejo o mundo encapado por uma sacola de plástico. Na farmácia, nós estamos com um projeto para mudar isso ainda este ano. A idéia é pedir que os clientes devolvam as embalagens para que a gente possa doar para alguma entidade e elas podem vender para a reciclagem. Quando acabar as sacolas plásticas que nós temos na farmácia, não vou deixar fazer mais. Penso em trocar pelo saquinho de papel, que se desfaz mais rápido.

JC - Como é a Paula Carazzatto dentro de casa?

Paula - Eu sou a mãe cheia de defeitos. Eu sou uma mãe que mima, que faz tudo o que os filhos querem. Eu sou a mãe quase avó, que ‘estraga’ os filhos, os netos. Como mãe, eu fui ótima. Acho que meus filhos não têm do que reclamar, porque eu sempre procurei ser participativa, sempre passeei com eles, me diverti com eles. Sempre arrumava um tempo para estar com eles, mas como educadora acho que fui péssima. Esse negócio de deixar os filhos fazerem tudo o que querem não é bom. Eu tenho dó. Eu sou muito mole para educar. Nesse quesito, eu falho muito, porque eu amo criança. Se eu pudesse, teria mais filhos. Se tivesse condições, eu teria um orfanato de tanto que eu adoro cuidar de crianças.

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Perfil

Nome: Paula Renata Aparecida Nigro Rivera Carazzatto

Idade: 48 anos

Local de nascimento: Bocaina

Marido: Sylvio Augusto Caraz-zatto

Filhos: Guilherme, 22 anos, Rodolpho, 21 anos, e Isabella, 18 anos.

Hobby: “Minha neta, Júlia.”

Livro de cabeceira: “Muitas Vidas, Muitos Mestres” (Brian Weiss)

Filme preferido: “Casablanca”

Estilo musical predileto: MPB e pop rock

Time: São Paulo

Para quem dá nota 10: “Para minha avó, dona Nena (falecida).”

Para quem dá nota 0: Para a corrupção na área da saúde