Roma - A Igreja Católica listou, por meio de um de seus membros do alto escalão, o que considera serem os “novos pecados sociais”. O elenco foi mencionado pelo arcebispo Gianfranco Girotti em entrevista ao jornal “Osservatore Romano”, publicação oficial do Vaticano, na edição de anteontem.
Ao responder quais são, para ele, esses novos pecados, Girotti, bispo-regente da Penitenciária Apostólica, listou “várias áreas nas quais encontramos ações pecaminosas” hoje, especificando o que chamou de manipulação genética, o uso e comércio de drogas, a desigualdade social e ações antiecológicas, como poluição.
Esses novos pecados, disse o arcebispo ao “Osservatore”, são conseqüência do “inevitável processo de globalização”.
Girotti, o segundo homem na linha de comando do dicastério que tem sob sua responsabilidade, entre outras atribuições, a absolvição dos pecados cometidos na Santa Sé, deu a entrevista ao jornal do Vaticano após encerrar um curso de atualização para padres confessores. Antônio Flávio Pierucci, professor do Departamento de Sociologia da USP, lembra que há uma gama de classificações e hierarquizações de pecado na Igreja Católica, e que sua gravidade é determinada em parte pelo padre confessor, que toma a confissão do pecador.
Pecado estrutural
Para o padre e teólogo José Oscar Beozzo, do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização Popular (Cesep), é importante que a igreja esteja chamando a atenção para “novos tipos de responsabilidade”.
Beozzo viu com bons olhos a menção à ecologia, embora tenha citado um outro aspecto ligado à poluição, o trânsito, “que mata como uma guerra no Brasil”, como um mal social.
Quanto à desigualdade, Beozzo diz ser importante que seja mantida como preocupação da igreja, por ser o "pecado estrutural mais profundo nas nossas sociedades, particularmente na América Latina''.
Já sobre a manipulação genética fez uma ressalva, defendendo a atividade científica e dizendo que “um cantinho” dessa atividade de pesquisa é efetivamente manipulação, sendo ruim colocar “tudo num pacote só”. O teólogo afirmou ainda que a igreja sempre teve dificuldade em separar o que seriam os pecados individuais dos sociais, e que a América Latina teve uma contribuição fundamental nesse debate.
“Pouco a pouco viu-se que há coisas que são estruturalmente injustas, que não dependem de uma pessoa só”, e dentro da igreja, diz, tomou-se consciência de que há “situações de pecado”' que levam danos a outras pessoas.