Durante todo o mês de março as pautas da imprensa e de entidades governamentais e não-governamentais abordarão a temática mulher. Falarão da mulher mãe, da mulher esposa, da mulher disso e daquilo. No entanto, fica a questão o que é quem é a mulher desta primeira década do século XXI?
Distante das feministas politizadas dos anos sessenta e setenta, a mulher da primeira década do século XXI se tornou um monstrengo do sistema: é machista, alienada, preconceituosa e desprovida de inteligência crítica e política.
De maneira sistemática ela vem se mutilando em nome de uma beleza plastificada. Só durante o ano de 2000, na virada do novo século, não apareceu uma nova mulher, mas uma legião de mutiladas. Naquele ano foram computadas 350 mil cirurgias plásticas, conforme dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. É como se em cada 10 mil brasileiras, 207 tivessem se submetido ao bisturi estético. Em 2004, o número pulou para 425.288 cirurgias plásticas feitas por mulheres. Desse número 117.759 foram de implantes, 198.137 de lipoaspiração e o restante relativo a cirurgias plásticas de nariz e abdome. O Brasil se tornou com isso o segundo país em cirurgia plástica no mundo.
No cruzamento das pesquisas o que se observa é que a mulher vem se mutilando para conseguir casamento. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, relativos a tabelas de Registro Civil, o número de casamentos subiu 3,6% em 2005, ou seja, de cerca de 181 milhões de brasileiros, 835.846 se casaram oficialmente em 2005 (últimos dados oficialmente registrados).
E essa mulher não sonha apenas em se juntar a um homem, ela quer se fantasiar de princesa ao lado de um príncipe encantado. A indústria do casamento no Brasil, segundo dados da Expo Noivas e Festas, movimenta mais de R$ 2 bilhões por ano. Ou seja, a cada cinco minutos, sete casais trocam alianças, correspondendo a 1 milhão e 700 mil casamentos por ano. No mundo dos cosméticos, a indústria apresenta um crescimento de 15,8%, o que equivale a 15,4 bilhões de lucro.
No dia a dia, a mulher contemporânea assumiu os discursos machistas e pérolas como “a maior inimiga das mulheres é a própria mulher”. Ou, quando está ao volante e se vê ameaçada por outra mulher também ao volante, não se esquiva de dizer “só podia ser mulher mesmo” (dando a entender que mulher não sabe dirigir automóveis). E fica a questão ao ver uma mulher criticando outra pelo gênero: o que será que ela é?
A filósofa Marilena Chauí afirmou que ideologia é a transformação das idéias dos grupos dominantes como sendo de toda a sociedade. No caso, se percebe que a mulher contemporânea assumiu o discurso dominante masculino de mundo e por ele não mede esforços.
No campo da política, em final de 2007, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o eleitorado feminino superou em 4,6 milhões o número de homens. São 65,9 milhões de eleitoras em um total de 127,4 milhões de votantes em todo o país. Ou seja, a mulher representa hoje 51,7% dos eleitores no Brasil. No entanto, quantas são as vereadoras, deputadas e senadoras que temos hoje no país? Os números não são animadores.
Conforme dados do TSE, somente nas Assembléias Legislativas e Câmara Distrital são 106 mulheres eleitas em relação a 953 homens eleitos. Ou seja, apenas 10,01 de mulheres são políticas eleitas em um país em que a maioria do eleitorado é constituído por mulheres. E isso significa que os homens vão continuar definindo os rumos políticos das mulheres. Questões como o legítimo direito ao aborto, violência contra as mulheres, eqüidade salarial e tantos outros temas relevantes para as mulheres estão nas mãos dos homens. E, por incrível que pareça, as mulheres apalpando os seus silicones e escovando os seus cabelos à base de chapinha acham isso muito natural.
O autor, Ricardo Alexino Ferreira, é jornalista e professor da pós-graduação e da graduação da Unesp