Não chega a ser novidade, mas desta vez não deu para disfarçar a tristeza dos analistas “plugados” aos mercados financeiros em seus comentários após a divulgação pelo IBGE dos números do crescimento da economia brasileira em 2007. Para quem passou metade do ano “cravando” 3.6% e quando muito “concedendo” algo como 4.1% ou “no máximo” 4.3% na segunda metade, o crescimento de 5.4% do PIB é algo “no mínimo” escandaloso... O feito, portanto, precisava ser devidamente qualificado: “é, cresceu..., mas sem o aumento dos investimentos não vai se sustentar...” ou, “não é um crescimento sadio, porque sustentado pelo aumento do consumo interno (sic) à custa de um endividamento exagerado...”
Logo o côro veio reforçado com a advertência de alguns expoentes da ideologia liberista para os quais o governo age muito mal quando adota medidas para estimular ainda mais o consumo, porque “a economia não tem potencial para suportar um crescimento acima de 5% sem perder o controle da inflação...”. Toda essa ansiedade no fundo reflete uma grande preocupação de quem está posicionado em taxas de juro e percebe que começou um movimento (ainda tímido, é verdade) para a adoção de uma política monetária mais inteligente que privilegie a produção e a liberte do domínio da especulação financeira pura e simplesmente.
Tem um caráter meio terrorista essa tentativa de convencer as pessoas que é preciso fazer um aumento preventivo das taxas de juro para afastar o risco da volta da inflação ou “efeitos da crise externa” (sic). Não faz nenhum sentido elevar os juros aqui enquanto as taxas estão sendo reduzidas em todo o mundo, o que significaria aumentar ainda mais o diferencial entre as taxas internas e externas. E criar mais dificuldades para a redução de nossa dívida interna. Uma elevação da taxa básica de juros não teria tanta importância sobre o consumo atual, apenas contribuiria para destruir as expectativas de crescimento e o ânimo dos empresários que só investem quando sabem que há demanda além de sua capacidade atual de produção.
O que temos que fazer é continuar estimulando fortemente os investimentos para ampliar as exportações industriais, pois são elas que vão garantir o crescimento econômico e o emprego nos anos próximos, enquanto aproveitamos a situação favorável dos preços e da demanda nos mercados mundiais para nossos produtos agrícolas e minerais. Hoje, as energias para o nosso crescimento são basicamente internas; não existe à vista nenhum efeito mais dramático da crise deflagrada nos Estados Unidos em nossa área externa devido à situação confortável das reservas, num nível superior a 190 bilhões de dólares.
Desde o início do ano acreditei num crescimento superior a 5% do PIB em 2007, devido à disposição do governo de trazer de volta o setor privado aos investimentos na infraestrutura básica de rodovias e de superar rapidamente os obstáculos à retomada das obras no setor da energia. Isso foi reforçado no decorrer do ano com a confirmação das descobertas das reservas de gás e petróleo que nos garantem a autonomia energética pelas próximas três décadas pelo menos. O governo não decepcionou, não frustrou as esperanças dos empresários e trabalhadores: as oportunidades de investimento apareceram, a oferta de empregos cresceu pela primeira vez em quase uma década, refletindo-se na melhoria da renda da população. Os resultados premiam o homem da fábrica, a supremacia da “formação econômica do assalariado” na definição pitoresca mas sem dúvida absolutamente pertinente do presidente Lula. Estou convencido que em 2008 repetiremos a dose: o crescimento da economia brasileira será maior que 5% , provavelmente muito próximo de 6%.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento