09 de julho de 2026
Bairros

A luta pelo pão de cada noite

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 3 min

Há pelo menos 10 anos, o garçom Odair Jorge Pereira trocou o dia de trabalho pela noite. “Tenho apenas este trabalho. Começo no final da tarde e por várias vezes na semana só retorno para casa por volta das 4h”, conta. Ele, como outros trabalhadores bauruenses, enxerga no expediente noturno a única forma de garantir o sustento para toda a família.

E não são poucos. Cerca de 10% das 90 mil pessoas que atuam com carteira assinada em Bauru passam pelo menos uma parte do período noturno no trabalho, de acordo com o economista Reinaldo César Cafeo. Segundo ele, essa tendência já é realidade tanto nos bairros quanto na área central de Bauru.

“Após a meia-noite boa parte da cidade ‘ainda’ dorme, mas essa realidade tende a mudar nos próximos anos, já que o mercado de trabalho noturno em todo lugar segue tendência de crescimento”, avalia Cafeo.

Isso significa que trabalhar durante o dia e reservar a noite para o descanso começa a deixar de ser uma regra. A cada ano que passa, principalmente nas grandes cidades e agora mais recentemente em municípios do porte de Bauru, a noite começa a abrir espaço para o mercado de trabalho.

Pela legislação trabalhista, trabalho noturno é aquele cujo expediente se dá entre as 22h e 5h. Em Bauru, nesse período, a noite já oferece os mais diversos serviços e alguns seguem madrugada adentro.

A maior parte deles, por enquanto, como os supermercados, farmácias e postos de combustíveis, encerra seu expediente por volta da meia-noite. Mas mesmo assim é possível encontrar estabelecimentos de gastronomia e diversão abertos durante a madrugada. Além deles, setores como prestação de serviço em saúde, segurança, entretenimento e hospedagem funcionam nesse horário.

E o grupo deve ser ampliado ainda mais, uma vez que, segundo Cafeo, a cidade tende a criar novas vagas de emprego nesse horário alternativo para atender as necessidades de seus moradores.

Nesse movimento de mercado, Cafeo diz que nitidamente o trabalho noturno tem absorvido mão-de-obra não tão especializada. “Como o mercado para profissionais especializados já está saturado durante o dia, muitas pessoas enxergam na noite a oportunidade de ouro para não engrossar a fila de desempregados”, analisa.

Entidades de classe ligadas ao trabalho noturno acreditam que a cidade consegue gerar hoje cerca de 15 mil empregos, incluindo aí os trabalhadores informais. Cafeo acredita que esse número seja, no momento, ‘um exagero’, mas admite que a quantidade de vagas cresce em ritmo rápido e em breve Bauru pode atingir esse patamar.

Claudinei Medina, 22 anos, garçom há quatro anos, é o retrato do que afirma o economista. Medina não concluiu os estudos e, para conseguir sobreviver com a esposa e o filho, aceitou trabalhar como garçom de bebidas.

“Hoje me esforço para crescer aqui, quero servir mesas e quem sabe com o passar do tempo conseguir ser pizzaiolo”, almeja. Medina trabalha todos os dias da semana, das 20h até 2h, e às vezes consegue fazer algum bico como cobrador durante o dia.

Pereira, o garçom, diz que após todos esses anos trocando a noite pelo dia, nota que não consegue mais alcançar aquele sono pesado enquanto dorme. “Acordo várias vezes e nesses dias venho trabalhar totalmente cansado”, explica.

O garçom conta que tem vontade de trabalhar durante o dia e dormir na hora certa. “Seria uma experiência nova, pois nunca vejo meus filhos adormecerem e quando chego em casa minha esposa já está dormindo”, lamenta.